Capítulo 31 - Rafael

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Rafael

Eu acordei sabendo que teria um dia infernal e que daquele em diante não teria melhores. Mas nem por um momento cheguei a pensar que aquele seria o dia em que eu recuperaria meu coração. Como poderia ter acontecido se a garotinha que o roubou permanecia desaparecida dentro de algum lugar acima das nuvens? Me fiz essa pergunta muitas e muitas vezes antes de compreender que minha ladra havia mandado que um anjo o devolvesse pra mim.

O anjo não tinha asas, mas tinha meu coração e isso bastou.

E então a garota destruiu a minha vida

E então a vida destruiu a garota

Caminho pela passagem concretada dentro do Bosque de Eucaliptos que ladeia o único colégio de Broken Forest chutando as pedras por meu caminho de maneira distraída tentando me atrasar ainda mais, consciente de que não poderei fugir do que tanto me incomoda por muito tempo. Mas no que dependesse de mim meu reencontro com aquela garota seria adiado o máximo possível. Eu não queria ser obrigado a encarar um fantasma nem olhar ou muito menos falar com ele. Mas sabia que isso acabaria acontecendo, a menos que me mantivesse escondido dentro de uma cabana de lençóis como fazíamos quando éramos crianças e não posso negar que a ideia tenha me passado pela cabeça.

Saio do bosque alheio e imerso em pensamentos quando sou assolado por uma sensação inquietante que me faz erguer os olhos do chão e olhar adiante para me deparar com uma cena perturbadora que em um primeiro momento me paralisa. Uma garota presa a uma cadeira de rodas se dedica a subir a rampa com certa dificuldade quando de repente suas mãos se soltam fazendo com que deslize para trás rapidamente enquanto eu me preocupo em olhar ao redor procurando por mais pessoas que estejam presenciando essa merda. Mas para seu azar parece que sou o único por perto e estou longe demais para poder ajudá-la antes que seja tarde demais.

Porra, ela vai se machucar!

Esse se transforma em meu único pensamento e é o que faz com que eu tome uma atitude. Saio em dispara em sua direção mesmo sabendo que não importa o quanto eu corra não conseguirei alcançá-la a tempo antes que caia. Mas eu não hesito.

Então tudo acontece rápido demais. Seus cabelos compridos da cor do fogo se agitam para todos os lados parecendo em chamas enquanto suas mãos se debatem no ar sem nada para se agarrarem. Cacete, porque ninguém ajudou ela a subir? Me pergunto quando no fim do caminho a cadeira de rodas cede por não suportar o solavanco e seu peso ao mesmo tempo, tombado para trás. Suas pernas são jogadas para o alto e sua cabeça bate com força no chão depois de um ricochete.

Em um primeiro momento penso que o impacto a deixou inconsciente. Mas então vejo seus olhos se mexerem. Enquanto largo a mochila e derrapo ao lado de seu corpo não consigo deixar de pensar no quanto parece estranho que a garota nem mesmo se esforce para se erguer. Ela permanece no chão, imóvel, olhando para o céu acima de nós como se aquele ladrão fosse a coisa mais bonita que já tenha testemunhado. Mas entendo o sentimento quando me reclino e olho para seu rosto. Porque ela sem dúvidas é a coisa mais bonita que eu já testemunhei.

— Você está bem? — Pergunto de maneira afoita não obtendo uma resposta, o que me preocupa ainda mais. — Se machucou?

Ela pisca e seus olhos contemplativos se transformam em duas pedras ao se desviarem do céu para me encararem e isso me arrebenta por dentro porque seu olhar feroz faz meu coração bater, bater de verdade sem que eu me dê conta da razão. E então algo dentro de mim se esfacela porque essa garota desconhecida, misteriosa e deteriorada poderia ser apenas uma pessoa, Aurora.

Enquanto seus pés não tocarem o chão - Aurora & RafaelLeia esta história GRATUITAMENTE!