Capítulo 30 - Aurora PARTE I

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Aurora

Fragmentada, estilhaçada, esfacelada. Despedaçada, desmantelada, danificada. Todas essas denominações são sinônimos da minha dor, palavras que me definem. E cada uma delas me disse a sua maneira que não me restou mais nada, que eu não poderia ser mais trincada do que já me sentia, acreditei nisso até olhar dentro daqueles olhos solitários, vazios e incrivelmente desconcertantes. Eles me disseram de imediato que não há NADA que não possa se quebrar um pouco mais, nem mesmo eu. É assim que eu me sinto quando ele me olha, quebrada. Quebrada, inquieta e apavorada.

Os olhos daquele garoto


Na manhã seguinte a primeira coisa que constato quando meus olhos se abrem é que estou de mau humor. Isso não poderia ser considerada uma grande novidade a meu respeito. Mas normalmente sou apenas amarga e nessa manhã estou amarga e de mau humor. Porque aquela imundice de cachorro passou a madrugada inteirinha arranhando minha janela e meu maldito silencio me impediu de mandar que calasse o focinho. Pensei em arremessar alguma coisa nele enquanto me virava de um lado para o outro tentando cobrir a cabeça com o travesseiro, incapaz de encontrar uma posição que fizesse sua presença ser meramente tolerável, mas não encontrei nada pesado o suficiente para matá-lo. Por Deus, como eu queria matá-lo.

Resumindo, em uma única noite eu passei a detestar cães. De todos os tipos, cores e tamanhos, principalmente aqueles que não tomavam banho. Eles não eram tão fofinhos quanto eu havia imaginado, pelo contrário, eram no mínimo criaturas maléficas quando decidiam perturbar alguém. Essa foi a primeira vez que passei uma madrugada planejando e sonhando acordada com a morte de alguém que não fosse eu. Bom, Jully não conta! Ela logicamente é menos importante pra mim do que que as pulgas daquela porcaria peluda que me fez uma serenata.

— Bom dia garota, contemple uma linda manhã. — Exclama Finn passando por minha porta cheio de sorriso e dentes. — Não é um lindo dia, Aurora? — Ah, vai a merda, Finn! — É, algumas coisas nunca mudam. — Murmura dando de ombros.

— Se arrume e venha tomar café da manhã conosco. Estamos te esperando na mesa. — Levando os lábios em uma expressão descontente que pode ser comparada a um preludio de um ataque com dentes enquanto o filha de uma puta tem a ousadia de escancarar minha janela me cegando com os raios solares. — Não demore, você não quer se atrasar para o seu primeiro dia de aula, não é? — Mais uma expressão descontente, dessa vez acompanhada de um rosnado. Se eu não estivesse momentaneamente cega e secretamente com medo de Finn se apoderar do meu controle remoto como castigo tentaria lhe morder. Brincar de zumbi deve ser divertido.

— Eu heim, que bicho te mordeu hoje?

Morder? Nenhum. Fazer um concerto com na minha janela, um.

— Bom se apresse e se eu fosse você pentearia os cabelos. Não foi uma das suas ideias mais brilhantes dormir com ele molhado. — afirma apontando para minha cabeça como se ela fosse um experimento que deu errado. Ele não está melhorando em nada meu humor. — Você parece um daqueles palhaços que animam festas infantis.

Nossa que lisonjeiro, porque você não vai para o Inferno?

Ah é, já estamos aqui!

— Essa sua cara meio que me apavora. — Exclama dando um passo para trás. — Mas não é nada pessoal, eu juro! — Me assegura quando findo os olhos em sua direção.

E os elogios só começaram...

— É que eu nunca fui muito fã de palhaços, sabe? Tem alguma coisa muito perturbadora naquela maquiagem esquisita. Fora que é muito difícil confiar em alguém que usa roupas duas vezes o tamanho normal, não acha? Sempre que me deparo com um fico esperando que uma machadinha saia de dentro daquele traje e acerte minha cabeça. Talvez seja o nariz porque também é muito difícil confiar em alguém com um nariz vermelho. Eu sempre fico olhando para aquela coisa enorme e pensando que enquanto estou distraído a machadinha poderia aparecer. Ou quem sabe seja a flor que esguicha água? Não dá para confiar em alguém que ganha a vida molhando as pessoas, não é? Bom essa é a minha opinião, claro. — Finn só se cala quando agarro o relógio da mesinha de cabeceira e sorriso diabolicamente em sua direção. Meus olhos dizem: EU VOU JOGAR! Porque eu vou mesmo.

Enquanto seus pés não tocarem o chão - Aurora & RafaelLeia esta história GRATUITAMENTE!