Capítulo 7 - Gatas Siamesas

Começar do início

—Acho que as gatas siamesas de mais cedo parecem saber muito bem o que se passa por aqui — Jack sorriu, tendo em mente como se vingaria do sarcasmo do amigo: — Preparado, empregadinho?

— Você é impossível — ele resmungou, apoiando-se no degrau de alumínio, para erguer-se com alguns grunhidos típicos de um sedentário. — Vamos logo.

— Depois de você, querida — Jack o reverenciou como um cavalheiro, imerso em ironia. Oz se conteve em revirar os olhos, sabendo que qualquer comentário feito seria respondido por vinte piores. Certo, talvez os dias tendo a cartomante como companhia não fossem ser bons para ele. Afinal, aturar um detetive regularmente metido precisando inflar o ego seria insuportável. Se o Jack "normal" já se encaixava no adjetivo, quem dirá um Jack com orgulho ferido? Seria a representação do inferno na terra.

Caminharam com certa pressa até a parte do gramado seco, em que as duas irmãs viam-se sentadas. Estavam distantes de uma Charlize distraída, focada em balançar um graveto sobre o fogo e soprando as faíscas que ameaçavam incendiar o seu pedaço de madeira. Era como se a mulher estivesse em outro mundo. Encontrava-se mergulhada em seu próprio planeta, tentando desvencilhar-se das notícias que fornecera — e recebera — naquele dia que lhe parecera infinito. As imagens do pai a acompanharam madrugada adentro, o vira encará-la com os olhos assustados, perdidos. Embora ainda acreditasse, mesmo que pouco, no retorno de um Lance sorridente, alegando que enchera a cara após descobrir sobre a tragédia da esposa, por isso não lhe dera notícias.

E ela sabia que ele nem era de beber.

London e Paris Wright mordiscavam duas coxas de frango, sujando-se com a parte gordurosa que espalhava-se por suas bochechas finas. Sentavam-se diretamente no gramado, deixando certa parte da vegetação grudar em suas coxas descobertas. Os vestidos, curtos e brancos, estavam amarrotados e com manchas de terra em suas barras, mas elas sequer reparavam nisso. As visões, naturalmente estreitas, estavam atentas ao alimento, o qual ingeriam alucinadas, como se não se alimentassem há anos.

Custaram alguns segundos, para que Paris notasse a sombra de um Jack Johnson com as mãos nos bolsos e seu olhar atento sobre ela. Então, a menina logo cutucou a irmã, ainda preocupada com a necessidade arrancar parte da carne, que desfiava-se entre seus dentes.

— O que você quer saber? — London perguntou impaciente, deglutindo o pouco alimento que fora capaz de arrancar com a dentição frágil de uma garota de dezenove anos.

—Ah, a senhorita já sabe — ele retrucou, estreitando os olhos para ela.

Paris e London entreolharam-se apreensivas, trocando diálogos silenciosos que apenas as duas poderiam compreender. Assentiram, por fim, e rapidamente retornaram aos policiais.

— Ela não era um amor de pessoa... sabe?— London começou, fazendo com que os dois homens acomodassem-se sem muito jeito naquele terreno desconfortável, sentindo pontas de capim seco pinicarem suas pernas. — Uns gostavam até.

— Mas a maioria, não — Paris se manifestou, levantando os ombros, como se não se importasse com aquilo, e colocando o alimento de lado, assim como London. — Estava mais para uma vadia, de qualquer forma.

— Só o imbecil do marido que não percebia. — a outra concluiu o pensamento da irmã, e elas riram em escárnio.

Os investigadores chegavam a ser capazes de sentir a inveja que aquelas duas nutriam pela bailarina. Aliás, lhes parecia que compartilhavam esse tipo de sentimento em relação a maioria das pessoas. A infelicidade com suas vidas era palpável, simbolizada até pelo desespero em que se alimentavam, tamanha era a necessidade de acelerar suas ações para que suas línguas pudessem voltar a se ocupar com xingamentos diversos.

Entre Tangos & TragédiasLeia esta história GRATUITAMENTE!