Capítulo 13.

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Sem você, eu não tenho nenhuma mão para segurar

- Você foi muito corajoso lá, falando todas aquelas coisas. – tomo um susto e engasgo com o suco de laranja de forma nada encantadora, fazendo-o rir. – Desculpe, não queria assustar você. – ele põe as mãos nos bolsos do moletom, uma expressão envergonhada no rosto.

- Tudo bem. – tusso com a mão em frente à boca, me recuperando do incidente vergonhoso. Como não sei o que dizer para continuar a conversa, ou mesmo se devo continuar a conversa, fico calado, encarando a mesa de quitutes, e o garoto faz o mesmo.

- Meu nome é Alexandre. – ele fala de repente, num tom um tanto alto, me fazendo sorrir. – Droga, acho que gritei um pouco. – ele gargalha, e eu o acompanho. – Acho que ainda não fomos apresentados.

- Sou o Leo. – eu falo, apertando sua mão.

- É, eu sei. – ele sorri e guarda a mão no bolso. – Sinto muito por tudo o que aconteceu com você, os surtos e tal. – ele morde o lábio e eu, novamente, não sei o que dizer.

- Tudo bem. – dou de ombros. – Acho que todos temos algo ruim aqui, não é mesmo?

- Ah, com certeza. – ele passa a mão nos cabelos, o que eu acredito ser um gesto de nervosismo, pois o vi fazendo isso várias vezes antes. – Alguns mais do que outros. – acrescenta, olhando por cima do meu ombro com ares de reconhecimento. – Acho que sua mãe vem aí.

- Leo. – ouço a voz de mamãe e me viro para vê-la andando em minha direção, sorrindo. Por um momento, meu peito se aquece acreditando que o sorriso é para mim, chego pensar até que estou curado ou que o médico encontrou uma forma de trazer o antigo Leo de volta, mas então mamãe abre os braços para Alexandre, e o envolve. Sinto que estou caindo num abismo, e aquela sensação de inutilidade e aquela solidão imensa que sempre sinto antes dos surtos me atinge em cheio, e eu prendo a respiração, temendo que isso realmente aconteça. Mas não acontece, e eu não sei por que.

- Leo, este é o Alexandre. – mamãe aponta para ele, ainda sorrindo.

- É, nós acabamos de nos conhecer. – murmuro, forçando um sorriso, que acredito ter saído como uma careta. – Como vocês se conhecem? – pergunto, curioso.

- Ah, a mãe do Alexandre é uma grande amiga minha. Peça para ele passar em casa qualquer dia desses, Alexandre, e você também é muito bem-vindo, viu? – ela dá um tapinha no braço dele, que sorri abertamente.

- Pode deixar, dona Marta. – ele me olha de soslaio.

- Leo, o doutor quer falar com você. – mamãe se vira para mim, e eu entro em pânico.

- Bom, foi bom te conhecer, Leo. – Alexandre me tira de meu torpor quando toca meu braço, chamando minha atenção. – A gente se vê.

- Tudo bem. Até mais. – respondo, vendo-o se afastar. Alexandre caminha torto, uma perna dobra mais do que a outra, de forma que ele parece estar dançando uma dança estranha ao invés de caminhando, o que é engraçado.

- Leo, vamos? – mamãe pergunta, pegando meu braço e me acompanhando até a sala do Dr. Soares. Respiro fundo quando ela abre a porta, esperando-me entrar. Dou um passo para frente e adentro no cômodo, mil pensamentos na cabeça.

Minhas pernas estão tremendo quando me sento, assim como minhas mãos. Mamãe parece serena, o que me preocupa ainda mais. Estaria ela em choque, ou o médico tem boas notícias?

- Leo, primeiro de tudo. – Dr. Soares chama minha atenção, as mãos no ar, criando uma tensão. – Acalme-se, ok? – ele ri, e eu suspiro, aliviado. - São boas notícias.

- Tudo bem. – eu respondo, sentindo-me melhor.

- Mais calmo? Posso começar? – ele pergunta, cruzando as mãos, e eu confirmo com um aceno de cabeça. – Então tá bom. Leo, você deu um grande susto na sua mãe então, foi? – ele anota alguma coisa num caderno, e eu fico na dúvida se está esperando uma resposta ou se foi uma pergunta retórica. – Torçamos para que isto não aconteça novamente, não é? – ele me olha, e algo em sua expressão faz com que eu me sinta confortável, como se pudesse confiar nele, e eu confio. – Espero que você tome os remédios desta vez, Leo, de verdade, estamos confiando em você. – ele ergue as sobrancelhas, e eu fico confuso. – Sua mãe concordou em lhe dar uma segunda chance, os remédios estão por sua conta novamente. – olho para mamãe, e ela sorri em resposta. Não um sorriso forçado como antes, um sorriso de verdade, de confiança.

- Você já é um adulto, Leo, não posso continuar tratando-o como criança. – ela fala, apertando minhas mãos. – Estou confiando em você, por favor, não me decepcione.

- Eu não vou. Prometo. – e, desta vez, eu falo sério.

- Ah, e mais uma coisa. – Dr. Soares continua, tirando os óculos e cruzando as mãos sobre a mesa. – Sua mãe me disse sobre seus receios de sair de casa, e eu acho que já está na hora de lidarmos com isso, se você concordar, é claro. – ele espera minha resposta, assim como mamãe.

Penso nas pessoas lá fora, na roda de reunião. Todos eles estão passando por momentos difíceis, mas saem de suas casas todas as semanas para melhorarem, para serem melhores do que já são, então, o que me custa fazer o mesmo?

- Tudo bem. – eu respondo, curioso para saber qual é o plano do médico.

- Eu andei pensando que você poderia trabalhar numa oficina artística e literária da cidade, uma oficina cultural. O que acha? Se você concordar, podemos resolver isto e eu pedirei para que um dos organizadores entre em contato com você e lhe explique tudo, tire suas dúvidas e lhe mostre o lugar. Então, o que me diz? – dois pares de olhos esperançosos me encaram, e eu me sinto um pouco menor naquele instante. Vamos, Leo, aceite! É a sua chance de melhorar. – Eu sei que parece ser um passo muito grande, Leo, entendo se você se sentir desconfortável e....

- Tudo bem, eu aceito. – corto o médico, mas ele apenas sorri em resposta, satisfeito.

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