Capítulo 27 - Rafael

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Rafael

Não importa quanto ressentimento eu tenha guardado dentro de mim, a inveja continua sendo o que mais me consome. Eu a invejo porque meu maior desejo sempre foi ter o poder de transformar minha memória em uma folha de papel em branco intacta como a dela. Assim eu poderia reescrever a minha história, sem finais infelizes e sem rasuras, uma capítulo de cada vez. Se eu conseguisse me esquecer deixaria de me importar, e se eu não me importasse poderia finalmente respirar. Ela teve sorte porque a ignorância as vezes é uma benção.

Esquecimento

Lágrimas ainda escorrem por meu rosto e sinto a presença de Tommy ao meu redor. Sua preocupação é tamanha que se torna quase palpável fazendo com que eu tenha a sensação de que conseguiria agarrá-la no ar se quisesse. E não é para menos, fazem dez anos desde que meu melhor amigo me viu chorar pela última vez e foi justamente pelo mesmo motivo. Enquanto escondo meu rosto dele embrenhado nas palmas das minhas mãos imagino quantas vezes terei que me despedir daquela garotinha e quantas vezes ela de fato precisará morrer para que eu consiga enterrá-la de uma vez por todas?

Isso nunca tem fim.

— Calma, Rafael. — Pede Tommy me fazendo abrir os olhos e passar as mãos por ele para me livrar das lágrimas com brusquidão e vergonha enquanto caminha em minha direção e se prostra ao meu lado colocando uma de suas mãos em meu ombro e o apertando com força em um gesto de solidariedade. — Ela pode estar viva em algum lugar, nós não sabemos.

Eu não acredito nele nem mesmo por um único segundo. Não porque não quero e sim porque não consigo suportar crer. Se eu ainda me punisse tendo esperanças terminaria por odiá-la também já que a única explicação para que Lexie ainda respirasse e eu não soubesse é que eu não era tão importante para ela como ela foi para mim. Afinal, que tipo de pessoa desumana deixaria outra viver com a culpa que eu carrego se pudesse anulá-la?

Antes que eu pudesse partilhar minhas convicções com Tommy fomos interrompidos e eu me senti aliviado porque tinha certeza que me arrependeria de qualquer coisa que falasse em voz alta naquele momento. Mas meu alivio desapareceu depressa, assim que que nosso intruso ganhou um rosto. Um rosto conhecido.

— Cheguei bando de palhaços! — Exclama Tristan alto o suficiente para que tenhamos um sobressalto. Ele luta contra um arbusto que cresceu mais do que deveria para entrar na clareira enquanto chuta e resmunga com a planta até conseguir passar. E mesmo nesse momento faz questão de dar outro tapa na coisa. — Mas que droga! Vocês não poderia ter escolhido um lugar melhor para o clube da Lulu? Tipo um pavimentado e sem essas merdas! — Resmunga apontando com raiva para o arbusto.

— Trouxe uma caixa de lenços fracote, me falaram que você ia precisar! — Balança o objeto com um sorriso divertido que desaparece no momento em que ele realmente dá uma boa olhada no meu rosto contorcido. — Puta merda! — Exclama chocado. — Você andou chorando ou alguma coisa mordeu a sua cara? Bom, você está medonho! — Muito, muito sutil!

— Porra, Tommy! — disparo com irritação jogando os braços para o alto. — Porque você ligou pra ele?

— Não sei lidar com essas merdas Tascione, — Essa é a desculpa que o filha da puta me dá em meio a dar de ombros, sem ter nem mesmo a decência de parecer arrependido. — Então eu pedi ajuda.

Justo para o Tristan? Pelo amor de Deus! Eu precisaria ter peitos consideráveis ou um bom traseiro para conseguir chamar a atenção daquele pervertido, fora isso ele era tão inútil quando aquela caixa de lenços.

Enquanto seus pés não tocarem o chão - Aurora & RafaelLeia esta história GRATUITAMENTE!