Capítulo 26 - Aurora

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Aurora

Som. Essa única palavra possui inúmeros significados e detém muitos sinônimos. Ruído, barulho e tinido são alguns deles. Mas eu tenho mais um, liberdade. Pode não fazer sentido para quem não mora em um castelo de flagelos imposto a se calar para sobreviver em suas masmorras lhes sendo concedidos apenas murmúrios lamentosos ou um silêncio sepulcral. Porque somente aqueles que já perderam mesmo que por um breve instante suas liberdades compreenderão que não há nada mais libertador do que o som de contentamento de um mero riso.

Todos os risos que eu não dei

Finn permanece perturbadoramente quieto enquanto dirige pelas ruas de Broken Forest me mostrando que quando está de péssimo humor é um motorista invejável que não passa de vinte quilômetros por hora. Nota mental: Irritá-lo sempre que formos dar uma voltinha. Enquanto isso eu me preocupo com uma possível retaliação por meu comportamento descontrolado. Duvido muito que Finn seja capaz de encontrar uma punição que me desconcerte. Bom, a menos que estejamos indo para o abrigo de animais da cidade adotar um cachorro para ser meu coleguinha de quarto ou que Finn decida pendurar minha gerinçonsa no teto para me obrigar a me arrastar por aí, fora isso ele tem nada. Nesses momentos é realmente bom ter uma vida despedaçada, não é?

Ser tão fodidamente fodida que mais nada te atinja.

Não que eu não tenha feito por merecer ser castigada de alguma forma, porque em poucas horas de hospedagem eu havia conseguido arrasar com a decoração do quarto que ele se preocupou em me preparar e feito sua gentil esposa com um péssimo gosto para roupas sangrar. Fora que eu possivelmente era a responsável por sua família em peso ser obrigada a procura aconselhamento psicológico depois de lhes mostrar minhas cicatrizes bonitinhas.

Eu simplesmente me superei dessa vez, porque se bem me lembro demorei mais de um mês para começar a afugentar as enfermeiras em Amber House quando me mudei. Doutor Frankenstein ficaria imensamente orgulhoso se soubesse sobre meu progresso no primeiro dia de liberdade condicional. Eu conseguia imaginar até mesmo suas malditas sobrancelhas franzidas me observando com descontentamento. Deus, como eu sentia saudades daquelas taturanas medonhas.

Em dado momento me sinto sufocada pelo silêncio de Finn e isso é surpreendente porque adoro quando as pessoas calam suas malditas bocas, mas estranhamente não ele. Então percebo gosto de sua voz porque ela faz com que eu me desconecte de todos os meus pensamentos apenas para escutá-la. E se tem um lugar de onde eu adoraria fugir sempre que possível são meus pensamentos.

Merda, Finn era minha nova pílula da felicidade!

Depois de abaixar minha manga com o maquicilar cerrado e empurrar minha cadeira de rodas barulhenta para perto da cama e me mandar subir nela com a voz seca e os olhos duros feito concreto ele não disse mais nada. Nem mesmo quando chegamos ao seu carro. Ele apenas esperou que eu me acomodasse no banco do passageiro e guardou a gerinçonsa se prostrando ao meu lado enquanto fazia o motor rugir. Finn é bom em me distrair de mim mesma e não está fazendo um bom trabalho nesse momento. Enquanto estou jogada silenciosamente ao seu lado deixo que o remorso me inunde.

Porque eu simplesmente não reagi como uma pessoa normal quando olhei para as roupas? Eu podia ter voltado a enfiar o vestido na sacola e ter balançado a cabeça negativamente até que Audrey me entendesse ou podia simplesmente ter virado a cara e esperado que ela fosse embora, mas não, eu tinha que pirar e sair quebrando tudo feito o lunático do Huck.

Eu o olho de canto e o vejo agarrado ao volante como sempre faz quando está tenso. Tenho a sensação de que ele o segura como se fosse o pescoço de alguém que ele adoraria enforcar e algo me diz que é meu lindo pescocinho que ele está imaginando em suas mãos. Então tenho certeza absoluta de que não era uma das pessoas favoritas de Finn no momento, embora ele ainda fosse uma das minhas.

Enquanto seus pés não tocarem o chão - Aurora & RafaelLeia esta história GRATUITAMENTE!