Capítulo 25 - Rafael

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Rafael

Estou no bosque sendo embalado pelo vento que brinca ao meu redor agitando as folhas nos galhos das árvores como se as fizesse dançar. Muitas delas se desprendem e giram em redemoinhos levitando ao seu comando diante dos meus olhos. Parece tão fácil, tão simples, tão mecânico. Ele açoita meu rosto com brutalidade. Gela o meu corpo com suas lufadas frias de ar. Faz seus assovios calarem meu sofrimento ao penetrarem minha alma.

Hoje eu desejo ser como o vento. Soberano e dono de meu destino. Descomedido e desprovido de sentimentos. Livre de responsabilidade por minhas ações. Hora brisa, hora ventania, sem culpa. Hoje eu desejo ser como o vento. Rápido, não pensante, destituído de passado, presente e futuro. Hoje eu desejo ser como o vento para não precisar pensar em mais nada a não ser brincar com as folhas. Hoje eu desejo ser como o vento porque descobri que minha ladra de corações não vive mais e isso é mais do que posso suportar.

Mas sem ela eu nunca poderia ser como o vento.


Ela chegou, mas veio sozinha

Embora seja fim de tarde e o céu ainda esteja claro em uma mistura de rosa e dourado ás copas das árvores o transformaram em um espelho do meu interior. Enegrecido e desprovido de cor, sem vida. Não consigo me lembrar há quanto tempo estou correndo sem rumo por entre as folhas mortas e os galhos despedaçados. Poderiam ser minutos ou horas, eu não saberia dizer. Tudo o que eu sabia é que Finn Holding havia me empurrado de um abismo e não importava o quando eu tentasse correr para escapar de colidir com o solo mais eu me sentia em queda livre.

Em um momento estou fechando os olhos para me proteger do impacto enquanto eu despenco em direção a um lugar que se chama passado e no outro estou encarando-o frente a frente com meus pés firmados no solo.

Minhas pernas me levaram até nosso lugar sem que eu nem mesmo notasse e isso me faz parar porque eu a vejo sentada sobre a superfície do nosso balanço. Serena e encantadora, sorrindo para mim. Então eu caio de joelhos no chão húmido e não consigo me levantar sendo consumido pelo remorso porque não mereço aquele sorriso.

Eu mereço exatamente o que sinto, dor.

Uma dor tão mais tão grande que não há mais nada dentro de mim a não ser ela.

Eu encontrei Aurora. — Foi o que Finn disse com os olhos inflamados de jubilo refletido por um intenso brilho de felicidade pura e genuína. Finn jogou as mãos para o alto como se comemorasse e quisesse que eu fizesse o mesmo. Faziam mais de dez anos que eu ansiava ouvir essas miseras palavras e quase a mesma quantidade de tempo que eu havia desistido de acreditar que ainda pudesse escutá-las um dia.

Era inacreditável, inconcebível, irreal. E mesmo assim aconteceu.

— Eu encontrei Aurora, Rafael. — Repetiu com um minúsculo sorriso enquanto eu me ocupei em ordenar a mim mesmo a fechar todas as portas de acesso para minhas emoções e me impedir de sentir qualquer coisa por saber que uma das minhas melhores amigas tinha sobrevivido e poderia voltar a estar em meu alcance. Eu queria lhe fazer um milhão de perguntas a seu respeito e não podia porque todo o remorso e todo o amor acumulados dentro de mim clamavam pela resposta de apenas uma pergunta: aonde está a garotinha que roubou meu coração?

Eu não queria sonhar acordado com abraços, beijos, reencontros e pedidos de perdão, ainda não. Mas eu os vivi e revivi incontáveis vezes dentro dos meus sonhos lúcidos nos poucos segundos que Finn demorou para falar outra vez. Eu tive tempo de viver uma vida inteira de ilusão ao lados delas naquele curto espaço de tempo e quando ele terminou me pareceu pouco.

Enquanto seus pés não tocarem o chão - Aurora & RafaelLeia esta história GRATUITAMENTE!