Capítulo 24 - Aurora

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Aurora


Quem admira o meu rostinho angelical não sabe o turbilhão de caos que rege meu coração palpitante. Ele foi tudo o que me restou: um rosto bonito. Um convite a algo sombrio. O que ninguém pode ver é que sou apenas uma casca danificada que guarda algo ainda mais danificado do lado de dentro. Eu sou uma farsa. Uma farsa envolta em um lindo laço para presente.


Cicatrizes

Audrey e Jessi voltam para casa rápido demais exterminando com a pouca solidão que consegui usufruir em suas ausências enquanto me afogava em meio um nome sem rosto, me culpando sem nem mesmo saber que mal lhe causei para me sentir tão transtornada por sua menção. Mas por mais inacreditável que fosse me senti aliviada quando suas vozes e passos permearam a casa e me deram uma música de fundo alta o suficiente para calar meus pensamentos confusos e tristes.

Elas me fizeram conseguir enterrar Rafael Tascione, por hora.

Em determinado momento elas riem de alguma coisa e tenho que me obrigar a parar de imaginar se não seria de mim enquanto aperto o travesseiro ao qual estou agarrada com mais força que o normal tentando sufoca-lo com minhas frustrações. Não consigo e nem tenho mais chances de tentar porque alguém bate a minha porta.

— Posso entrar, querida? — Pergunta Audrey com um minúsculo sorriso. Não lhe ofereço nada, nem palavras, nem gestos, nem olhares. Mas ela entra mesmo assim se sentando ao meu lado na cama enquanto Jessi se prostra na soleira da porta encostada ao batente, me olhando com uma irritação fingida para encobrir o medo. Já eu permaneço encarando uma das paredes com desinteresse decidida a ignorá-las pelo tempo em que for preciso, embora queria muito fazer . Não ia ser divertido?

— Eu lhe comprei algumas coisas. — Informa colocando duas sacolas de papelão em cima do meu colo ansiosamente. Seus olhos brilham de empolgação e me sinto péssima por não conseguir corresponder a sua amabilidade como ela gostaria. Na verdade me sinto arrasada. Meio dia fora do meu habitat natural e eu já estou ficando mole, sério?

— Mãe, ela é maluca! — alfineta Jessi me encarando duramente. — Duvido que ela consiga entender uma palavra do que você diz. — Mesmo que ela pense assim noto que ela ainda não cruzou a soleira. Eu realmente era uma ótima atriz!

— Ela entende. Eu sei que entende. — Responde de modo firme me olhando com carinho, conquistando um pedaço minúsculo da minha confiança e por menor que seja faz muito tempo que alguém não a recebe. — Você não quer ver, por favor? — Suas palavras doces me tocam profundamente porque já escutei essa frase entes com a mesma entonação. "Você não quer ver, Aurora? Nossa casa nova é linda, venha vê-la, por favor" disse mamãe inúmeras vezes sobre inúmeras casas.

Não quero sentir apatia por essa mulher. Mas é inevitável não ser tomada por uma enxurrada desse sentimento que já é quase um completo desconhecido para mim. Audrey tem o olhar contemplativo certo. O sorriso aberto certo. A voz melodiosa e doce, certa e as mãos quentes. Audrey possui todas as qualidades que uma mãe deveria ter e eu não tenho mais a minha. Essa constatação por si só era tudo o que eu precisava para odiá-la e mesmo assim não é o que eu me pego fazendo. Eu me pego querendo abrir as sacolas.

Suspiro pesadamente pesando se eu morreria se tentasse ser grata ao menos uma vez. Provavelmente sim e a culpada por minha morte será Audrey. Ela, seu cabelo, seu sorriso, seu olhar e seu afago diferenciado. Enquanto ela me olha com um misto de carinho e curiosidade que substituíram completamente a pena eu me decido por ser o mais gentil que puder então lanço ao nada um sorriso de gratidão que eu espero que ela capte sem que eu precise me esforçar mais. Mas infelizmente esse sorriso se desfaz quando ela começa a retirar as roupas da sacolas e pega um peça em especial me entregando-a de maneira animada como quem compartilha um segredo.

Enquanto seus pés não tocarem o chão - Aurora & RafaelLeia esta história GRATUITAMENTE!