Capítulo 23 - Rafael

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Rafael

Duas garotinhas que eu amava desapareceram sem deixarem nenhum vestígio de que um dia adentraram a minha vida para trás a não ser o espaço vago dentro do meu peito, a onde deveria estar batendo um coração, agora em seu lugar eu existia apenas uma cópia incapacitada de sentir qualquer sentimento bom. No dia em que descobri que uma delas tinha regressado e se encontrava a poucos quilômetros de distância não consegui me sentir verdadeiramente feliz com a notícia porque fui obrigado a encarar de frente todas as minhas lembranças, culpas e magoas e percebi que não queria as duas de volta, eu queria apenas uma, e aquela não era a garotinha certa.

Ela não era a garotinha que roubou meu coração


Regresso

Empurro minha mão para debaixo da torneira aberta fechando os olhos em meio a um suspiro aliviado porque de alguma maneira o contato com a água fria ameniza a ardência na ferida. Me apoio na bancada de mármore da pia soltando a respiração que estava presa desde o momento em que Bonnie me mordeu e dou uma boa olhada nas marcas profundas que seus dentes deixaram em minha pele, constatando aquela era sem dúvidas uma boa mordida. Mas isso não é nenhuma surpresa, ela sempre foi como um tubarão, sorrateira e pronta para dar o bote. Se eu olhar atentamente para minhas mãos ainda consigo destingir diversas mordidas antigas clareadas pelo tempo.

Sinto alguém se aproximar pelas minhas costas enquanto tento estancar o sangramento.

— Mas que porra! — Me viro para encontrar Tommy com ambas as mãos estendidas em minha direção com uma expressão preocupada no olhar quase que praticamente colado ao meu corpo. — O que você está fazendo atrás de mim, cara?

— Só me certificando de que teria alguém para te segurar caso você desmaiasse. — Murmura em tom de deboche dando um passo para trás de maneira incerta enquanto eu finjo que acredito na zombaria, embora eu saiba que ele estava fazendo exatamente o que me falou, se preocupando. Tommy se preocupa demais.

— Essa cachorra é uma psicopata! — Resmunga Tristan de forma irritadiça entrando na administração do abrigo batendo a porta atrás de si enquanto alisa as roupas cheias de lama fazendo com que Tommy e eu nos entreolhemos de maneira divertida, tentando segurar uma gargalhada. — Finalmente seu pai enfiou uma injeção no rabo dela e ela dormiu!

— Como ela está? — Pergunto preocupado me decidindo por ignorá-lo.

— Melhor do que eu que fui acordado ao raiar do dia para caçar aquela monstra porque um dos meus melhores amigos não tem o bom senso de me deixar dormir em paz! — Reclama com um erguer de sobrancelhas que indica que sua "ajuda" vai me custar caro no futuro.

Eu simplesmente não consegui lidar com Bonnie sozinho. Não somente por ela fugiu de mim quando cheguei perto demais ou por ter tentado me atacar por diversas vezes. Mas sim porque em nenhum momento ela deixou de prestar atenção na trilha da mata e esse era o verdadeiro problema. Essa sua obsessão me fazia ficar em dúvida. Eu não sabia se berrava a plenos pulmões para que ela desistisse, porque sua garotinha não ia mais voltar, se me sentava ao seu lado para esperar junto dela ou se apenas chorava. Não consegui me decidir, também não consegui mais suportar toda a esperança que inflava seus olhos quase humanos, então me afastei e liguei para Tommy e Tristan.

— Não fala assim dela, Tristan. — Murmuro voltando a lavar as mãos que ainda minam sangue sabendo que todos temos uma razão para sermos como somos, Bonnie também tinha as dela. Nunca descobrimos de onde veio ou pelo o que passou, mas mesmo sendo crianças sabíamos que não tinha sido agradável. Eu a entendo, realmente entendo porque ela parou de confiar nas pessoas, eu fiz o mesmo, não?

Enquanto seus pés não tocarem o chão - Aurora & RafaelLeia esta história GRATUITAMENTE!