Capítulo 22 - Aurora

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Aurora

Eu estava imune a qualquer coisa porque querendo ou não eu já estava morta e os mortos não se deixam assombrar, são eles que assombram. E em breve, querendo ou não, eu assombraria um garotinho arrombando a porta de sua vida como se nunca tivesse saído dela, feito o fantasma que eu era.

Bem-vinda a seu novo começo

Finn pilota seu carro de maneira tão desleixada quanto pilota aquela cadeira de rodas medonha e barulhenta que roubamos de Amber House. Se era mesmo necessário cometer um crime, me pergunto porque ele não tratou logo de surrupiar algumas coisa mais funcional e mais descente do que aquela velharia com a qual eu seria obrigada a me arrastar por aí, o lado bom de usá-la é que ninguém precisaria colocar um sininho do meu pescoço para antever minha presença, porque em cima dela eu não conseguiria ser discreta nem mesmo se quisesse.

Era quase como estar sentada sobre um barulhento e enorme caminhão de sorvete.

Enfim, ele era um péssimo motorista e também um péssimo ladrão.

Eu teria viajado de maneira mais confortável e menos radical se tivesse sido amarrada com uma corda em cima do carro que nem aquelas famílias felizes fazem com as bicicletas quando saem de férias nos filmes. Provavelmente eu não conseguiria usar apenas uma única palavra para descrever nossa viagem então teria que usar uma frase: Eu desejei beijar o chão quando chegamos, essa resumia bem.

Broken Forest é uma cidade pequena. Não, estou sendo gentil, ela é minúscula mesmo, diminuta ao ponto de me tornar uma pessoa claustrofóbica. Provavelmente é aquele tipo de comunidade feliz e unida a onde os vizinhos dão bom dia uns para os outros e obrigatoriamente têm conhecimento de cada um dos podres de todos os habitantes e isso me deixa alarmada porque está mais do que claro que o anonimato dentro dela será um problema. Então enquanto nos embrenhamos no lugar me pego pensando em quanto tempo vai demorar para meu nome parar na boca no povo e eles descobrirem até mesmo as cores das minhas calcinhas diárias. Levando em consideração que temos apenas a calcinha que estou usando imagino que uns poucos minutos deem conta do recado!

Nota mental: Preciso de mais calcinhas.

Não precisa ser nenhum gênio para saber que se a história que Finn me contou sobre meu passado for mesmo verídica será um prato cheio para os fofoqueiros de plantão. Já posso até mesmo ouvir os rumores e não gosto nem um pouco deles. "Você viu quem voltou? Não foi aquela menina estranha sentada na cadeira de rodas que desapareceu daquele incêndio anos antes junto com a mãe e uma menininha inocente, a filha do policial?" É isso que dirão e depois virão as especulações. "O que será que elas fizeram com a menininha?" E a partir daí teremos muitas teorias para trabalharmos porque uma comunidade mesmo que pequena possuía proporções imensas quanto o assunto era discutir a vida alheia.

"Será que sequestraram, roubaram ou a mataram?" Não, eu não suportaria se isso acontecesse porque eu sabia por quais caminhos essas ideias insanas e mentirosas nos levariam. Elas culpariam uma das pessoas envolvidas no nosso desaparecimento, a única com discernimento para compreender todos os fatos que o envolveram e também a única que não podia mais se defender de possíveis conjecturas falsas. E eu não possuía mais minha voz para poder impedir que ela se transformasse em um alvo.

Ninguém poderia saber sobre o meu retorno, isso era um fato!

Infelizmente Jully não sabia disso e havia complicado a tarefa de me fazer conseguir passar desapercebida por essa cidade me obrigando a frequentar o colégio que era sem sombra de dúvidas o maior centro de fofocas já criado pelo homem depois dos salões de beleza. Era muito simples, se aquela vaca traiçoeira e vingativa não quisesse ser manipulada tão facilmente por mais ninguém deveria pensar duas vezes antes de trair o marido com o jardineiro e sair por aí contando isso para Deus e o mundo sem prestar atenção a quem pudesse estar escutando suas conversas telefônicas, não tinha necessidade de foder mais com a minha vida como punição.

Enquanto seus pés não tocarem o chão - Aurora & RafaelLeia esta história GRATUITAMENTE!