Capítulo 17 - Aurora

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Aurora

    Nenhuma existência é continua, sempre haverá pausas. Sejam elas paracaçar sonhos fujões ou mesmo para se esconder de sua continuidade indesejada,as vezes as pessoas simplesmente querem deixar de viver por um tempo ou parasempre. Pensei que a minha tivesse acontecido quando eu queimei e decidi quenão viveria mais, embora ainda respirasse. Eu parei no tempo, me estagnei e me deixei ficar alheia doque acontecia da porta para fora, dentro do mundo real. Mas com o passar dotempo percebi que não se tratava de uma pausa e sim da vida, minha nova vida eela era tudo que eu conhecia. Percebi isso no exato momento em que a deixeipara trás para conhecer as mudanças do lado de fora e essa sim seria uma pausa,porque não importava o que eu viesse a ver, ainda iria querer me trancar dentrodaquela maldita porta.

Pausa

  Eu deixei o medo partir porque não tinha mais o que temer. Não existia mais nada que me tirasse o fôlego ou que fizesse meu coração despedaço palpitar de emoção. Nenhum sentimento era palio para o turbilhão de negatividade que me consumia. Nada mais tinha poder sobre mim, ou pelo menos foi o que pensei, porque em um estalar de dedos minha vida tinha virado de ponta cabeça e todas as respostas haviam desaparecido porque as perguntas haviam mudado.  

Eu pensei que soubesse exatamente como seria meu futuro e o que poderia esperar dele, afinal eu mesma o havia escolhido para mim e o aceitado desde o momento em que despertei nessa nova vida que eu desprezava porque ele era o único que cabia dentro da minha dor. Não haveriam mudanças. Eu não permitiria que houvessem. Bem como nunca houve qualquer dúvida por minha parte sobre o assunto desde que escolhi a maneira como queria passar o resto dos meus dias, trancafiada. Eu estava decidida e condenada a viver dentro do mesmo inferno sem fim e não possuía nenhuma escolha a não ser me deixar ser consumida pela dor da saudade e pelo remorso do que não tinha podido fazer, salvar a pessoa que eu mais amava. Porque eu temeria algo se tudo sempre permaneceria igual mergulhado em puro fogo escaldante? Não tinha sentido.

Então contra todas as minhas expectativas e desejos eu traí minhas próprias convicções e deixei que algo mudasse dentro de mim quando pediram a minha ajuda para poder dar paz a um coração em frangalhos feito o meu e isso me fez voltar a temer o futuro. Diferentemente de antes agora ele era incerto outra vez, porque eu aceitei ajudar.

Não que eu não tivesse me arrependido poucos milésimos de segundos depois de concordar e mesmo assim eu ainda iria em frente porque se tinha algo que eu presava acima de tudo era minha palavra, mesmo que ela não fosse audível, ainda era válida. Eu só não sabia o que me aguardava do outro lado dos portões de ferro da clínica psiquiátrica, também não queria descobrir, mas ia e quanto a isso, nada mais poderia ser feito porque eu nunca poderia ter recusado aquele pedido.

Finn era a única pessoa por quem eu ainda tinha algum tipo de sentimento e sua dor era muito parecida com a minha para que eu me abstece. Ninguém merecia tamanho sofrimento e se eu pudesse fazer qualquer coisa para atenuá-lo eu o faria mesmo que para isso tivesse que encarar o incerto novamente. Fora que se eu tivesse me recusado seria mais uma tonelada de culpa para guardar dentro do peito e meu reservatório interno já era suficientemente abastecido para que eu me autoflagelasse por uma vida inteira, eu não precisava de mais.

Então outro sentimento surgiu. Um que passou a me consumir lentamente enquanto os minutos se passavam, o receio de falhar. Eu ainda tinha dúvidas se seria mesmo útil em alguma coisa. Infelizmente eu não sabia se podia salvar aquela garotinha, se ainda lhe havia restado tempo para ser salva ou se minhas lembranças realmente voltariam. Tudo o que eu sabia era que ao menos podia tentar.

Enquanto seus pés não tocarem o chão - Aurora & RafaelLeia esta história GRATUITAMENTE!