Capítulo 16 - Finn

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Finn

Passei muito tempo esperando por uma ligação, qualquer uma, de qualquer pessoa. E isso nunca muda quando alguém que amamos desaparece no vento como uma folha que se desprendeu de uma árvore e voou pelo céu sem destino certo. Parece que quando se perde alguém o telefone ganha poderes mágicos. Ele é uma das únicas ferramentas que ainda lhe dão esperança e também uma das únicas que com poder de toma-la. Uma nova forma de decepção é descoberta a cada dia em que ele não toca

Fé cega  

Saí de Amber House sem esperança, abandonando uma garota que assim como eu não a possuía mais. Eu vi no olhar de Aurora que ela não cederia, que não me ligaria. E mesmo assim não consegui me desprender da minha maldita fé o suficiente para soltar o celular no console do carro, pelo contrário, a cada quilometro rodado eu o apertava mais forte em minha mão, como se assim, pudesse fazê-lo tocar.    

Esperança e fé são praticamente a mesma coisa, eu sei. Mas consigo distingui-las. Esperança é o que desaparece quando a resposta nunca chega porque infelizmente ela não é resistente o suficiente para não se desgastar. Já fé é o que cresce em meio ao silêncio. É a crença em algo divino, maior do que as expectativas, algo que tem o poder de realizar desejos, milagres. Então quando a esperança te abandona, só lhe resta a fé de acreditar no impossível. Eu ainda esperava pelo dia em que não me restaria mais nada, porque era evidente que para Aurora ele já havia chegado.

Eu não me ressentia e não a culpava por ser tão reticente, eu a entendia. Sabia exatamente como era perder a pessoa que mais se amou e o que essa perda poderia causar dentro de uma vida. Também sabia que cada pessoa lida com a dor de uma maneira diferente. Eu lidou com a sua deixando de existir e eu lidei com a minha criando uma caçada a um fantasma. Não éramos diferentes, apenas havíamos nos aprisionado em lugares diferentes.

Nossa dor era a mesma.

Eu poderia ter lhe dito que acreditava que sua mãe ainda estivesse viva. Essa informação teria feito com que ela aceitasse qualquer oferta que eu pudesse lhe fazer em troca da minha ajuda para encontrá-la. Pensei nessa possibilidade por dias e dias e perdi a coragem de ir vê-la porque no auge do meu desespero seria a cartada que eu teria usado. Eu não podia fazer isso com ela, usá-la dessa forma, passando por cima de seus sentimentos para me beneficiar de alguma maneira.

Lexie nunca me perdoaria.

Diferentemente da minha filha, eu não necessitaria do perdão de Aurora. Ela sem dúvidas, me culparia por ter acobertado a mentira por tanto tempo, mas eu duvidava que se recusaria a ouvir o que eu tinha para lhe contar. Mesmo que perdesse a confiança em mim, ainda assim iria querer saber tudo o que eu sabia sobre sua mãe, era instintivo. Mas ela ainda estava machucada demais e eu sentia que não era o momento certo para que o assunto viesse à tona.

Como ela se sentiria se soubesse que foi abandonada para morrer pela pessoa que mais amou em sua vida e da que mais sentia falta? Talvez elaborasse diversas possibilidades para tentar elucidar seu comportamento, porque o amor era ardiloso e capaz de fazê-la arrumar uma desculpa convincente para não acreditar na verdade. Mas também poderia fazê-la sucumbir. Eu não podia arriscar.

Pensava que teria tempo de prepará-la de maneira correta para entender tudo que eu tinha que lhe explicar. Fui lento porque estava sendo cauteloso e meticuloso em ganhar sua confiança. Eu já havia esperado tempo demais por minha filha para jogar minha única chance de reavê-la fora, sendo inconsequente. Mas sua transferência foi o impedimento que me fez pular etapas e lhe dar muitas informações ao mesmo tempo sem realmente saber se ela estava preparada ou não para recebê-las. Foi algo pelo qual eu não esperava.

Enquanto seus pés não tocarem o chão - Aurora & RafaelLeia esta história GRATUITAMENTE!