Capítulo 14 - Finn

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Finn

Todo policial tem aquele caso. Um que causa insônia e exaustão. Ele poder ser ou não pessoal, não importa, porque passa a ser tudo em que você consegue pensar em uma obsessão cega e desenfreada. Ela era o meu caso antes mesmo de ser um caso de verdade.
Ela era e sempre foi pessoal.
Ela era minha filha.

Caçada a alguns fantasmas
Um ano antes

Meu trabalho é composto por tudo que há de ruim no mundo. Então em todos meus anos de profissão eu pensei que não existia uma maldade que eu pudesse ainda não ter visto. Eu me enganei. Uma cena em particular jamais poderá ser comparada a qualquer coisa que eu já tivesse visto ou ainda pudesse ver durante minha carreira. Nada, absolutamente nada, faria jus aos sentimentos sufocantes e tortuosos que me perseguiam desde que vi minha filha ser consumida pelas chamas. Essa ainda não foi a pior maldade que cruzou meu caminho. Nunca terem encontrado seu corpo nos destroços foi.

Sem dúvidas aquela era uma lembrança com o máximo de potencial para fazer com que eu me afogasse em muitas garrafas de whisky por noite. Mas eu já tinha largado a bebida antes e fiz isso unicamente por ela, sendo assim não me perdoaria se traísse sua memória voltando para o vício, se eu tivesse transformado toda aquela dor em capricho e tentasse esquecê-la no fundo de um copo. Então ao invés de me entregar, eu procurei por ela. Eu nunca parei de procurar por ela. E era essa busca que me mantinha de pé.

Eu queria entender como três pessoas presas dentro de uma casa em chamas que se tornou uma ruina de escombros desaparecem sem deixar vestígios, mas nunca consegui. Pensando como policial eu era obrigado a pressupor que minha filha estivesse morta e pensando como pai eu jamais poderia perder a crença de que um dia a encontraria com vida. O problema é que eu era os dois. Eu era policial e era pai. E eu já estava ficando sem esperanças, até que cruzei, por acaso, com uma pista.

Era um dia normal e eu estava voltando de um trabalho bem executado em outra cidade. Já estava escuro e eu acabei me perdendo depois de pegar uma saída errada na rodovia. Sendo assim, deixei que meus instintos me guiassem e continuei dirigindo ciente de que encontraria um lugar meramente conhecido em breve. Na verdade eu encontrei muito mais do que um lugar conhecido, eu me deparei com uma cena conhecida, a mesma que tirava meu sono noite após noite.

Freei o carro assim que vi a casa em chamas.

Depois que perdi minha filha eu não lidava mais bem com aquele tipo de situação. Para ser sincero, eu não lidava e ponto. Nada tinha o poder de me fazer chegar perto de um incêndio. Mas naquela vez foi diferente porque meus olhos não viam mais a casa, eu só tinha olhos para a garota que estava dentro dela. Quando notei seu contorno em uma da janelas do andar superior meu peito se comprimiu como se estivesse sendo esmagado pela lembrança.

Eu sabia o que viria em seguida.

Um pai chorar, assim como eu chorei.

Fiquei incapacitado por um curto período tempo e mesmo que eu tivesse conseguido reagir de imediato não teria servido para nada. Não tinha como salvar aquela garota. Não existiam mais paredes. O que antes ela chamava de lar não passava de uma bola de fogo escaldante que iria matá-la. Mas minha filha se fez presente nos meus pensamentos então deixei de controlar meus atos. Era como se eu assistisse minhas ações como expectador de algum lugar fora do meu corpo. Me vi sair do carro gritando por socorro enquanto corria em direção as chamas. Me vi arrombar a porta e ser recebido por uma lavareda infernalmente quente que me impediu de entrar. Me vi ser queimado e queimado e queimado até que um bombeiro me arrastasse para longe Por último me vi caminhar até o outro lado da rua e me sentar com o rosto entre as mãos oprimido por um choro silencioso de derrota.

Enquanto seus pés não tocarem o chão - Aurora & RafaelLeia esta história GRATUITAMENTE!