Capítulo 13 - Rafael

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Rafael

O tempo é inconstante. Ele passa rápido demais quando estamos vivendo um momento feliz e se arrasta quando queremos apenas que ele voe até o dia em que possamos respirar novamente depois de um baque. A dor faz isso com as pessoas, ela sufoca. Se eu tivesse que escolher uma cor para minha dor, seria vermelho, a cor das chamas e do sangue que o fogo derramou. A cor do vestido dela no dia em que a conheci. O mesmo vestido que usava no dia em que foi embora.

O ladrão de garotinhas

Dez anos antes

Tudo o que aconteceu depois que as estruturas da casa vieram abaixo arrancando de mim as minhas únicas e melhores amigas é um borrão. Eu só me lembro que gritei. Gritei até que minha voz se acabasse e até que meus pais me encontrassem. De joelhos, no meio da multidão, destruído. Quando fui abraçado por eles os soluços vieram, tão altos e desalentadores que levaram consigo toda gama de sentimentos bons que existiam dentro de mim. Eles me deixaram vazio.

Não sei quem me pegou no colo, mas acho que foi o papai. Eu não me lembro de mais nada. Não notei um único detalhe sequer do caminho até em casa. Não sei precisar o que aconteceu quando chegamos. Nem mesmo o momento em que fui colocado em minha cama. Eu só sei que eu chorava e a mamãe também, agora ela também havia perdido suas duas melhores amigas. Também deveria estar vazia.

Dormimos abraçados de tanto chorarmos lágrimas sem fim.

— Rafael. — Abri os olhos e encontrei papai me encarando com preocupação. Me sentei na cama rapidamente, sendo atingido pelos turbilhão de sentimentos arrasadores da noite anterior e procurei por mamãe em busca de consolo, mas ela não estava mais lá. — Eu quero conversar com você sobre o que aconteceu ontem, tudo bem?

— Eu perdi elas, não perdi? — sussurrei já sabendo a resposta. Eu não sei como ela chegou até minha consciência, mas ela estava lá. O céu não roubava apenas mamães doentes ele também roubava garotinhas saudáveis. Constatar isso me fez odiá-lo. Ele, suas nuvens, suas estrelas e seu poder.

— Não. — falou com veemência. — Eu não sei. — disse logo depois, sem tanta certeza dessa vez. Papai suspirou e caminhou até minha cama, se sentando ao meu lado. Ele olhou para a parede antes de continuar a falar como se ela fosse muito bonita, mas era apenas a mesma parede de sempre. — Não sabemos o que aconteceu com elas, Rafael.

— Mas elas estavam na casa e eu já vi o que acontece quando as coisas queimam, elas desaparecem. — por isso Lexie tinha medo de fogo. Ela tinha medo de desaparecer.

— E foi realmente isso que aconteceu, elas desapareceram. — meus olhos se encheram de água involuntariamente e eu funguei fazendo com que papai se virasse para poder me olhar nos olhos. — Mas não por causa do fogo, filho.

— Eu não entendo. — sussurrei limpando a bochecha com as costas das mãos. Então meu coração doeu porque a partir daquele dia eu não teria mais minhas melhores amigas para enxuga-las para mim como sempre fizeram. Eu teria que enxuga-las sozinho.

— Eu sei que você sabe que as pessoas um dia morrem, certo? — é, eu sabia. — E quando isso acontece apenas a essência delas vai embora, o corpo fica para os familiares. Você se lembra que no velório de Viviene ela parecia estar dormindo? — assinto. Lexie pensou o mesmo, lhe beijou o rosto e pediu para que acordasse, mas ela não estava mais lá dentro.

— Sim. — assenti respirando fundo antes da minha próxima pergunta. — Lexie e Aurora estão dormindo em algum lugar?

— Os bombeiros apagaram o fogo e os policias entraram na casa. Elas não estavam dormindo lá, você entende? — perguntou gentilmente enquanto minha cabeça fervilhava de possibilidades.

Enquanto seus pés não tocarem o chão - Aurora & RafaelLeia esta história GRATUITAMENTE!