Capítulo 12.

21 4 0


Sem você, eu me sinto quebrado

Como se eu fosse metade de um todo

- Leo, por que não aproveita que está aqui e participa da reunião? – Dr. Soares pergunta, sorridente. Olho para mamãe em busca de qualquer sinal de orientação, torcendo para que ela diga que me quer na sala, conversando com eles, mas recebo um aceno de cabeça.

- Tudo bem. – murmuro, desapontado. Levanto-me da cadeira colorida e saio da sala. Quando fecho a porta, escuto a voz abafada do médico dirigindo-se à mamãe, e sinto medo novamente. E se ele disser que sou um caso perdido? Que preciso ser internado e ficar entre quatro paredes para sempre?

- Leo! – uma voz feminina e conhecida me chama, e a enfermeira cujo nome eu nunca me lembro acena para mim, convidando-me para participar da reunião. Quando me junto à roda, cumprimentando alguns conhecidos e não recebendo muitos "olás" em retorno, ela diz:

- Você sumiu! Sente-se, sente-se. – sorrio, pois já estou sentado. – É mais do que bem vindo para compartilhar algo conosco, sentimos a sua falta!

Agradeço com um sorriso e ela se volta para as outras pessoas. Olho ao redor e vejo Bob de cabeça baixa, ao lado de um garoto que eu nunca tinha visto antes. Ele me pega olhando-o, e eu desvio o olhar rapidamente, envergonhado.

- Muito bem! – a voz da enfermeira soa alto no cômodo silencioso. – Quem quer ser o primeiro? Bob? – Bob faz de novo com a cabeça pela não sei qual vez, mas sei que não será a última. Ela não desistirá enquanto não arrancar uma palavra dos lábios de Bob, nem que precise perguntar a mesma coisa todos os dias e sempre receber a mesma resposta. – E você, Leo? – olho para cima assustado quando escuto meu nome e a vejo me encarando, sorridente. – Faz tempo que não o vemos, não sabemos como está. E você falou da última vez!

Quando mencionou meu nome, eu já pensei seriamente em negar, mas então me lembrei de que eu já falei antes, e foi muito bom.

- Tudo bem. – falo antes que possa me arrepender.

A enfermeira não parece surpresa, ou talvez eu esteja imaginando coisas. Os remédios ainda não foram trocados, acredito que o Dr. Soares e mamãe estejam falando sobre eles agora mesmo, mas não quero pensar nisso.

- Muito bem, o que gostaria de nos contar? Como está se sentindo hoje, Leo? – a enfermeira pergunta, ainda sorridente, o que é um pouco assustador.

Olho para meus colegas, cada um com suas dores, seus problemas, e imagino se é certo despejar mais coisas neles. E se alguém piorar, se surtarem? Não quero ser responsável por desencadear mais dor à essas pessoas, todos eles já têm coisas demais para lidar. Mas e eu? Não mereço uma chance de ser ouvido?

- Leo. – a voz mansa da enfermeira me faz olhar para cima, saindo de meu torpor. – Estamos aqui para ouvir, pode contar conosco. – sorri encorajadora, e, desta vez, funciona.

- Olá, meu nome é Leo, e eu sofro de depressão.

- Não sei bem quando tudo começou, mas eu tive meu primeiro surto quando... – paro de falar, envergonhado. – Descobri que era homossexual e meus amigos se viraram contra mim.. – torço as mãos sobre as pernas, nervoso. – Eu não sabia o que estava acontecendo, mas não comia, não dormia e só ficava trancado no quarto, não tinha vontade de fazer nada. Eu me sentia um lixo. – fungo, engolindo as lágrimas. – Eu não contei para ninguém até ter meu segundo surto, alguns meses depois, quando meu pai e meu irmão morreram num acidente de carro. – prendo a respiração, tentando me acalmar e evitando olhar para cima. – Novamente, eu consegui esconder o surto da minha família. Minha mãe e minha irmã não perceberam o que estava acontecendo, afinal, estávamos todos de luto, e eu era um bom ator. Elas mal percebiam que eu não comia, que dormia demais e ficava o tempo todo no quarto, trancado no escuro. – paro de falar, mas tudo está quieto, e eu tomo isso como uma permissão para continuar desabafando. – Quando descobriu, mamãe não sabia o que fazer. Ela não conhecia a doença antes disso, e entrou em pânico. Ela não sabia como me trazer de volta, acho que, no fundo, não sabia nem mesmo se poderia me trazer de volta. – limpo as lágrimas da bochecha antes de continuar: - Não sei por que estou contando tudo isso aqui. – rio, nervoso. – Mas é bom poder falar, é bom ser ouvido. Obrigado por me ouvirem. – olho ao redor envergonhado, mas ninguém parece estar me julgando. Alguns me olham como se não soubessem o que dizer, outros, como se entendessem. O garoto novo que eu ainda não conheço e que eu estava encarando mais cedo se encaixa na segunda categoria, e, quando me pega olhando-o pela segunda vez, ele sorri.

Quando você me encontrouRead this story for FREE!