Voe!

132 10 6



               Pouco antes do nascer do sol, Gina já empilhava uma centena de micro pergaminhos ao redor do dedal que usava como mesa. Quando Lucy, ainda sonolenta, tentava entrar em sua sala sem danificar nenhum deles.

              — Sente-se — Disse Gina, sem ao menos erguer os olhos, estava munida com sua potente voz anciã.

              E aquele som, ligeiramente ecoado pelas paredes do velho tronco de , fez com que um arrepio percorresse a espinha da pequena fada até que seu sono, se transformasse em uma preocupação instantânea.

             — Fiz algo errado? — Perguntou ela.

             — Não. Mas eu já estou velha de mais para recolher ingredientes. Está mais do que na hora, de você ter mais responsabilidades.

             — Ingredientes?

             — Sor Belvror...

             — Belvror!? — Interrompeu Lucy. — Algust Belvror? O escudo do rei?

             — Não, o escudo era Jhon Belvror, Algust é só o milésimo neto dele e já não é escudo, sequer mensageiro. Mas enfim isso não importa. O caso é que ele tem um plano para deter os avanços das tropas de Guiller... — Pausou Gina, prevendo uma nova interrupção — Não Lucy, não esse Guiller —Bufou— O gêmeo traidor já teve seus filhos, suas esposas e o seu encontro com a morte. O Guiller a qual me refiro é só mais um humano amaldiçoado pela falta de talento que os humanos têm para nomear as coisas. Só que este também nasceu pronto para honrar " a promessa do traidor! " — Dramatizou ela — Como eu ia dizendo, tratasse de um plano perigoso, desmedido, e até mesmo insano.... O que para ser sincera, também não importa. A questão é que com os exércitos da aliança tão distantes, eu acredito, que essa seja a nossa única chance de impedi-lo. Para tanto, precisarei da ajuda de suas asas velozes e alguns ingredientes. — Explicou Gina, tão convicta e sorridente, que Lucy se sentira incapaz de lhe questionar a respeito.

            Então, quando a fada nortenha começou a ler a sua lista de ingredientes, a mente de sua aprendiz revisitou todos os dramas, todos os textos e todos os debates que Lian, seu bardo favorito, havia escrito para as princesas de Saulahar.  Pois para ela, se existia em algum lugar, uma saída para aquela situação, só ele, o mestre das histórias, poderia lhe dizer.

" Vinte e uma lagrimas de urso,
 Sete fios da crina de um unicórnio negro,
 Oito penas de um estrela azul 
e

 Quatro sementes de um dente de leão. "

             Concluiu a Anciã, enrolando um já desgastado velino e o devolvendo a uma minúscula caixa ornamentada de salgueiro.

             A cada item anunciado, o coração da jovem fada ameaçava escapar pela garganta, e só de pensar que em breve o destino do Monte e toda Saulahar estaria em suas mãos, seu corpo enxercava-se de ansiedade e suor. O que por sua vez a deixava ainda mais inquieta, já que fadas não suam. Então assim que Gina lhe deu uma brecha, todos os pensamentos lhe escaparam, de uma única vez.

              — Quem é que prepara essa porcaria? E se nunca viram um unicórnio branco, imagina um negro! Como farei um urso chorar? Você notou que eu tenho só um mindinho humano de altura!? — Exausta, sentou-se para retomar o ar, mas logo levantou e como quem cospe algo a muito guardado, confessou — Eu nem consigo falar com os espiritos... Devo... devo ser a única fada no mundo, que não consegue ser uma fada. — Terminou, reflexiva e aos prantos.

             Então Gina, a menor e mais assustadora criatura conhecida, com suas narinas abertas, o olhar intimidador e uma vasta experiência com o drama, deu a volta no dedal, segurou as mãos da fada, olhou em seus olhos e sorriu.

            —Lucy! Há dentes de leão espalhados por todo o grande Monte Rulliver, basta colhe-los. Os ursos, assim como os mais valentes cavaleiros, também choram, só tente encontrar um filhote faminto que certamente conseguirá algumas lagrimas. Aliás, você já se esqueceu em que mês estamos? É a temporada de acasalamento do estrela azul, eles vão brilhar sobre a luz da lua e cantar para suas amadas até que a noite termine, apenas siga a canção. E sim, os unicórnios negros, até mesmo para as fadas, são muito raros. Até porque, a sua pelugem escura demonstra, assim como a dos leões, uma grande bravura. Mas, lembre-se que é da natureza de todos os unicórnios, defender as matas e proteger os inocentes, o que inclui a exibição do seu chifre prateado a donzelas, perdidas e inseguras. Lucy, você e a fada mais insegura do mundo. — Concluiu ela, com um raro e carinhoso abraço de despedida.

         Mas ainda que o abraço de sua mestra fosse reconfortante e talvez um de seus lugares favoritos, a vasta imaginação lhe fazia teorizar sobre todos os riscos e problemas que, certamente, lhe ocorreriam simplesmente por ser quem ela era. E aquilo foi lhe consumindo aos pouquinhos, até finalmente explodir em uma nova leva de pensamentos fugitivos.

           — Mesmo que o urso seja um filhote, ele ainda pode querer me comer! E os estrelas azuis podem achar que sou um inseto, aqueles pássaros burros, nunca me dão atenção... Eu.... Eu queria tanto... tanto! Poder voar com um estrela azul por aí... juntos, seríamos como uma linda estrela cadente, rasgando a escuridão dos céus noturnos, roubando os suspiros da lua, colhendo desejos sinceros.... Ah .... Eu me recuso a interagir com aqueles pássaros idiotas!

        — Basta Lucy! — Vociferou Gina. — Conde Guiller precisa ser detido.

        Percebendo que a mudança de tom deixara a jovem ainda mais assustada, Gina retomou sua postura solene, entregou os suprimentos que havia preparado para aquela jornada e agora mais próxima e mais calma, finalizou:

                — Você cresceu entre os mortais, em um jardim de castelo e não me espanta ser tão medrosa. Mas, eu realmente acredito em você, então abra suas asas, minha pequenina flor do inverno, abra suas asas e voe!

         E ela voou, rápida como um beija-flor, para além dos muros do seu jardim, dos bosques coloridos por ipês  para as férteis e selvagens florestas  da montanha. Com os olhos de uma criança, Lucy deslumbrava-se com cada uma das flores que encontrava pelo caminho e não demorou muito para se imaginar conhecendo uma centena de novos lugares, tão lindos quanto os descritos por suas histórias. Mas justamente, quando começara a se esquecer do que a levara até ali, uma inesperada gota de mel caiu sobre suas asas, levando-a subitamente ao chão, onde toda aquela felicidade dera lugar a um desespero interno, extremamente irritado com esse negócio de autoconfiança e contos de fada.

*****

São os leitores que dão vida a estas páginas.

Para manter este projeto sempre vivo, apoie o autor:

Acessando o Baú Arcano (bauarcano.com.br)
E curtindo a fanpage no Facebook (https://www.facebook.com/meianoiteobardo).

*Copyright ∞ 2016 Meia Noite, o bardo

Todos os direitos reservados incluindo o direito de reprodução total ou parcial.
Obra intelectual resguardada pela Lei 9610/98.

Lembrem-se: plágio é crime!

Lucy, a FadaLeia esta história GRATUITAMENTE!