Capitão, meu capitão!

Começar do início

Papai perdeu a arrogância, o orgulho, já não está tão agressivo como sempre foi. Imagino que essa doença tenha tornado meu pai mais humano, mas e minha mãe?

Mamãe assumiu as rédeas da casa, está exercendo um poder - legitimado pela "ausência" de meu pai - que nunca admitiu desejar. Ela também é uma nova pessoa, ela também está saindo do mundo conhecido e familiar, para penetrar em um mundo onde a lógica e as regras são flexíveis, surreais, absurdas...

Novos mares para velhas embarcações, viagem difícil.

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Quarta-feira, 25 de abril de 2007

Assisti ao filme Persona e em uma cena ela fala sobre o "inútil sonho de ser". Não sei até que ponto temos algum poder sobre a realidade, aliás, nem sei ao certo o que é realidade, uma vez que vivo respondendo aos delírio do meu pai com outros delírios e em alguns momentos, perco a noção de quem de nós está mais louco.

Descobri que esta estranha aventura da existência não possui nenhuma garantia; não nos oferece nenhuma certeza, nenhum porto seguro além da nossa fé desesperada, aliada à nossa ingênua certeza de que alguma coisa, ou Alguém nos acolhe e protege.

Papai me telefonou e disse que quer ir para casa. Disse a ele que estava na casa dele, mas ele não se convenceu.

- Pai, olha lá fora e veja se essa casa tem um jardim. Viu? Então, sua casa tem um jardim igual, então aí é a sua casa.

- Mas os homens trouxeram um monte de coisas da minha casa para cá. Eu não sou bobo, sei que esta casa não é a minha. Vou para minha casa.

- Então faz o seguinte, agora, está de noite, amanhã eu vou aí, pego o senhor e a mamãe e levo para sua casa. Mas o senhor não pode sair de noite, porque algum bandido pode pegar o senhor, ok?

- Aqui tem bandido?

- Claro que tem, promete que o senhor não vai sair?

- Então tá, mas amanhã nós vamos para casa?

- Vamos. Bem cedo.

Dorme em paz paizinho, eu vou rezar para que amanhã o senhor descubra que está na sua casa.

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Terça-feira, 01 de maio de 2007

Impermanência

Meu pai está me ensinando a difícil lição da descoberta da Impermanência.

Passei a vida inteira me imaginando senhora da minha vontade, das certezas, das frágeis "verdades absolutas", dos meus "grandes" sonhos, das pequenas conquistas e vitórias, dos patéticos troféus, dos bons amigos, dos invejados bens...

Acreditei que em meu amor existiam força e magia suficientes para proteger e manter as pessoas amadas felizes, ao meu lado, para sempre.

Imaginei que a vontade era o motor que movia meu mundo e minhas mãos desenhavam o mapa de meu Destino.

Vivi embriagada com esse "imenso poder". Passei a vida inteira alimentando essas doces mentiras, para proteger meu coração, da angustiante solidão da lucidez.

Até que um dia, a mão áspera da realidade arrancou-me dessa ingênua e acalentadora mentira.

Essa mão cruel leva os seres amados, sabota minha vontade e redesenha o mapa do meu destino, sem sequer me perguntar se esses novos caminhos carregam os anseios do meu coração.

Meu coração só consegue enxergar crueldade na situação absurda em que meu pai se encontra. Ele escapou do nosso mundo, fugiu para algum espaço-tempo acolhedor, onde a vida ainda não é um fardo. Entrou em uma fantasia absurda ou a realidade absurda era quase insuportável e essa viagem sem volta foi uma tábua de salvação lançada pela mesma mão que insiste em redesenhar nossa história?

Alzheimer - Diário do EsquecimentoOnde as histórias ganham vida. Descobre agora