Capítulo 30: Contemplem

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Darwin deu um passo à frente e meneou sua mão no rosto de Érico, que permanecia em posição de lótus, desaparecido dentro de seu corpo. Ela olhou à sua volta, sentindo o coração palpitar em seu peito. Quer dizer que ela não podia fugir e quem acabou fugindo era Érico? Que tipo de ingratidão era aquela?

O solo tremeu enquanto barulhos de passos se aproximavam. Era como uma manada de Galopantes aproximando-se. Darwin pensou em arrastar Érico dali, mas teve medo de arrancá-lo de um tipo de transe e ficar alguma sequela.

As portas foram arrombadas. As hordas de Evoxes entraram, atropelando-se, agarrando-se, golpeando-se, todos com sede por destruição. Darwin não sabia o que fazer, pois só sabia fazer uma coisa em momentos como aquele: fugir.

Ela aproximou-se de Érico, agachou-se ao seu lado e concentrou sua energia. Os seres artificiais chegaram mais e mais perto com sua gana assassina. Ela estendeu seu braço não ferido e um portal envolveu a dupla. Não era um portal comum, mas um invertido, cercando-os como um escudo. Os seres tentaram se aproximar e golpeá-los, mas foram impedidos pela espécie de barreira.

Darwin sabia dos riscos. A habilidade de fazer barreiras não era natural dos Tharinos, mas sua mãe havia lhe ensinado com um árduo treinamento, do qual ela jamais se esqueceu. Seus pais eram os primeiros Tharinos a conquistar aquela técnica, agora herdada por ela. A energia que ela consumia criando a barreira era completamente diferente das que usava para se teletransportar, e por enquanto estavam seguros.

A Tharina olhou à sua volta. Havia um mar de Evoxes. Os mais próximos batiam violentamente contra a barreira e quebravam seus braços, suas pernas, suas cabeças nas tentativas.

Um som de assovio ensurdecedor atravessou os céus sobre suas cabeças do lado externo do salão. Um estrondo há alguns quilómetros fez com que os pilares estremececem, soltando poeira. Quantos mais daqueles mísseis para tudo aquilo desmoronar sobre eles?

Um segundo assovio, um estrondo mais próximo, mais poeira descendo do teto xadrez e dos pilares. Dois, três, cinco estrondos depois, e Darwin percebeu a iminência da queda do coliseu. O mar de Evoxes não se afastava, não desistia de golpear seu escudo, completamente cegos pela ânsia de destruí-los.

— Merda... – murmurou ela, tentando concentrar a energia necessária para teletransportar ambos dali, mas o braço atingido pelo tiro tremia e não conseguia condensar seu Campus da maneira apropriada. Se Érico fosse o salvador do Universo, talvez ela considerasse a possibilidade de sacrificar-se para salvá-lo. Mas ele era o oposto disso, até que encontrasse o tal Desbravador. Darwin não tinha motivo para continuar ali e esperar seu soterramento. Ela devia salvar-se, deixar que Érico morresse dormindo, dilacerado pelos Evoxes ou soterrado pelos bombardeios contra aquele coliseu. — Ah, eu devia mesmo deixar...

O último estrondo foi tão forte que uma parte do teto ruiu alguns metros à frente, soterrando centenas de Evoxes. A barreira podia protegê-los de vários golpes inimigos, mas ela não podia dizer o mesmo sobre um soterramento. Sentiu o suor escorrer pela face. A barreira lhe cobrava energia demais, e os deslizamentos cobravam sua atenção. Era questão de tempo até que tudo, literalmente, desmoronasse.

— O que quer que você esteja fazendo ai, seu imbecilzinho, termine de uma vez – gritou Darwin.

...

Em posse do ônibus espacial de transporte de prisioneiros, Camilo dirigiu-se de volta a Hamar. O que ele e Alopex encontraram foi um cenário caótico: batalhas entre máquinas, tiros, destruição, Holonaves lançando artilharia pesada e espalhando chamas, Evoxes correndo em bandos , assaltando, atirando, destroçando uns aos outros, cidades novas e antigas ruindo, armas de destruição despertando e causando explosões de diferentes magnitudes.

Absolutos I - A Sinfonia da DestruiçãoOnde as histórias ganham vida. Descobre agora