Capítulo 26: Cardume

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O primeiro impacto sobre a 14-Bis foi sentido assim que deixaram o Campus de Zortzi. O míssil disparado pela Apis Mellifera não era destrutivo, mas o suficiente para avariar alguns comandos da Holonave. Darwin correu para o painel de controles, bradando palavras em Tharino que Érico jamais ouviu, mas que teve certeza de que eram palavras sujas.

— Tá querendo matar dois coelhos com uma cajadada só, não é Camilo?! – resmungou Darwin, e virou o volante cento e oitenta graus em meio ao espaço multicolorido. Puxou a alavanca e começou a disparar com o lança torpedos da 14-Bis em direção à Apis. A destreza de Camilo era anos luz maior do que a velocidade do ataque.

— Não seja louca de querer enfrentar o Camilo num ataque direto! Temos que fugir! Usa o seu teletransporte – bradou Érico.

— Você tem algum problema? Não notou que fui atingida no braço? Até isso aqui curar, nós estamos sem teletransporte! – explicou Darwin com palavras rápidas, sem tirar o dedo do lançador de torpedos.

A 14-Bis deu um rasante sobre Apis e esta desviou para o lado como um animal possuído. Érico tentou acompanhar os movimentos da Holonave-abelha com os olhos, mas era impossível. Sua dança habilidosa deixava um rastro vermelho em meio ao infinito multicolorido. O estômago de Érico revirou. Ter Camilo como inimigo definitivamente não era uma boa ideia. A Apis Mellifera passou raspando contra a 14-Bis e Érico sentiu o tremor. As luzes da Holonave falharam por alguns instantes e Darwin praguejou.

— O Camilo ligou um desfragmentador de energia. Se ele se aproxima de nós, a nossa energia falha. Filho da mãe! – explicou a Tharina, parecendo procurar no painel alguma arma secreta que pudesse usar. Ela escolheu o próximo destino em um mapa holográfico: Constelação Lehoia, planeta Hamar.

— Por que esse lugar? – perguntou Érico.

— Porque eu sei que tem um desses Desbravadores por lá, só por isso. De tempos em tempos, esses caras fazem algumas coisas que chama a atenção pra eles em algumas partes do Universo – esclareceu Darwin, sem tirar os olhos do volante. Não devia ser hábito da moça pilotar Holonaves, tudo estava sendo feito no improviso. — O Portal de Salto fica a novecentos quilómetros de Zortzi! – concluiu ela ao olhar no mapa.

Érico relembrou que o Portal de Salto era uma tecnologia desenvolvida por Tharinos ancestrais para levar as naves a diferentes lugares do Universo. Bastava que o destino fosse escolhido pelos mapas holográficos das Holonaves e o portal se adequava, abrindo uma passagem para aquele lugar específico. Se alcançassem o Portal, eles estariam a salvo de Camilo, que não saberia seu destino programado.

O problema era chegarem antes de serem pegos.

Darwin apontou para uma gigantesca estrutura em seu caminho e desviou a rota. Antes que Érico pudesse perguntar o que era aquilo, ela ativou as turbinas auxiliares da 14-Bis e voou na direção do objeto. Ao se aproximarem, o rapaz finalmente pôde entender do que se tratava: uma gigantesca ossada flutuando pelo espaço.

— O que raios é isso? – perguntou ele.

— É a ossada de um Tirano morto. Pelo que eu conheço da anatomia dessa criatura, nós estamos prestes a entrar em um verdadeiro labirinto. – Darwin disse, com olhos arregalados.

Os ossos da criatura eram tão complexos e gigantes que Érico sentiu-se voando por dentro de um palácio orgânico. A 14-Bis mergulhou pela costela imensa da criatura, um emaranhado de ossos formando estruturas colossais interligadas.

Eles seguiram pelas gigantescas vértebras lombares conectadas milimetricamente como uma obra de arte, e por um instante a dupla se esqueceu de que estava em fuga, admirados com a complexidade daquelas formas.

Absolutos I - A Sinfonia da DestruiçãoOnde as histórias ganham vida. Descobre agora