Capítulo 11.

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Então, pare o tempo aqui mesmo, à luz da lua

Porque eu não quero nunca fechar meus olhos

Quando acordo, mamãe está sentada na ponta da cama, olhando para fora da janela aberta, pensativa. Vendo que estou acordado, ela olha para mim, sorrindo um sorriso nada verdadeiro. É o sorriso mais forçado que eu já vi.

- Bom dia, Leo. – ela fala, dando um tapinha nos meus pés. – Como está se sentindo? – pergunta, os olhos inchados e vermelhos.

- Bem. – minto, mas ela parece acreditar. A verdade é que eu estou me sentindo um caco, um monte de trapos, mas não vou dizer isso à ela. Vendo sua aparência, parece que ela envelheceu uns bons dez anos de idade em apenas uma noite, e não consigo não me sentir culpado.

- Ok. Então hoje nós vamos ao médico para trocar os seus remédios.

- Mas, mãe... – Não! Não quero trocar meus remédios! Não quero mudar! Não novamente!

- Leo, eu sinto muito. – ela se aproxima, pegando minhas mãos. – Mas você teve um surto ontem! Trancou-se no quarto e nós não... Não sabíamos o que fazer. – ela começa a chorar, tapando a boca com as mãos. – Achamos que você ia... – sua voz falha nas últimas palavras, e ela soluça alto.

- Mãe, eu não ia... Não ia... – paro de falar ao ver o olhar de descrença em seu rosto, e acredito que eu esteja portando a mesma expressão, pois também não consigo acreditar em mim. Não ia? Eu não ia tentar me machucar OU me suicidar ontem à noite? Mas o que acontecera? Eu estava bem! Estive bem nos últimos dias, não estive? Estava tão bem que nem mesmo tomei os remédios! Ah, os remédios!

Solto a respiração com força, pensando se devo ou não contar para mamãe. Não. Ela iria me internar novamente para que eu tomasse todos os remédios, iria me visitar todos os dias, como antes, com os olhares tristes e cansados.

- Tudo bem. – murmuro, a cabeça baixa, ainda pensando.

- Ok. Vamos depois que você tomar o café-da-manhã então.

- Tá. – ela dá um tapinha na minha perna e sai, deixando a porta aberta. Joaquim entra de xereta e, como eu não o enxoto, se aproxima da cama, dá um pulo e se junta a mim. Olha fundo em meus olhos, o que é um pouco assustador, e, encostando a pata na minha bochecha, ele se encaixa em meu pescoço, deitando a cabeça em mim.

Fecho os olhos, descansando a mente, mas meus pensamentos estão agitados. Eu não tomei os remédios nos últimos dias. Mas estava tão bem!

E quem é que estava aqui ontem? Realmente havia uma pessoa aqui, ou eu imaginei tudo? Não, não posso ter imaginado, não sou louco assim. Eu senti alguém me abraçando! Eu ouvi alguém cantando!

- Ai, não... – sussurro, dando-me conta de quem era. David. Era a voz de David! Não pode ser.

- Leo, café-da-manhã! – a voz de mamãe me faz dar um pulo e, olhando mais uma vez para Joaquim, que dorme preguiçosamente na minha cama, vitorioso, levanto-me, troco de roupa e escovo os dentes. Não estou com vontade de fazer xixi, mas faço mesmo assim, pois sei quer vou ficar com vontade depois.

Desço as escadas lentamente e me sento à mesa da cozinha.

- Magda já foi? – pergunto para mamãe, que lava a louça.

- Uhum. – ela responde, fungando.

- Tem certeza de que precisamos ir hoje? Você não tem que...

- Hoje, Leo, nós vamos hoje. Tirei uma folga do trabalho. – ela me olha seriamente, e eu congelo com sua expressão fria, decepcionada. – Por que não tomou seus remédios nos últimos dias, Leo? – ela pergunta, mas eu não consigo formular uma resposta.

- Eu... Eu tomei, mãe. – rio, tentando aliviar a tensão, mas ela não se deixa enganar.

- Eu encontrei o frasco no bolso da sua calça. Cheio. Deveria estar pelo menos na metade.

Abro a boca para responder, mas nada sai. Mamãe aguarda, os olhos fixos em mim.

- Eu achei que... – engulo em seco, torcendo as mãos sobre a mesa. – Achei que estava bem. Eu estava bem, não precisava mais deles.

Mamãe bufa e anda para lá e para cá, me deixando cada vez mais nervoso. Uma de suas mãos está apoiada na cintura, e a outra aperta furiosamente a ponte do nariz.

- Eu estava bem, mãe! Eu juro! – exclamo, desesperado para que ela compreenda. Mas ela não entende.

- NÃO, LEO, NÃO! – mamãe grita, o rosto ficando vermelho. – De novo essa história! Já passamos por isso antes, filho. Você prometeu que, não importasse o que pensasse, continuaria tomando os remédios. Você me prometeu que não iria fazer isso de novo!

- Eu sei... – sussurro, tentando não chorar, mas é tarefa impossível.

- Deixei que ficasse responsável pelos frascos, você disse que faria tudo direito! – ela exclama, e eu me encolho ainda mais, culpado.

- Sinto muito, Leo, mas desta vez, eu ficarei com os frascos. Colarei o maldito calendário de volta e darei as pílulas na sua boca se for preciso!

Nunca vi mamãe falando assim antes, nunca, acho que é por isso que eu estou morrendo de medo. Sei que ela não me machucaria, mamãe nunca encostou um dedo em mim, mas não é disso que eu tenho medo. Tenho medo de que ela se canse de mim e me mande para longe, que não repita o que fez da primeira vez, deixando-me ficar em casa, cuidando de mim e me ajudando a melhorar. Tenho medo de que ela me deixe, e eu fique sozinho para sempre.

Penso em argumentar, pedindo mais uma chance, mas sei que ela está certa. Eu sabia que deveria tomar os remédios, mas não o fiz. Pela segunda vez, eu decepcionei minha mãe, e, como confio em mim para fazê-lo novamente, aceito ser cuidado por ela.

Baixando os olhos para meu café-da-manhã intocado, pego uma torrada e a ponho na boca, mastigando-a sem vontade e me esforçando para engolir.

Mamãe deixa a cozinha sem falar mais nada, e eu sinto o peso do mundo em meus ombros. Lembro-me de David quando belisco o sanduíche de presunto e queijo que mamãe fez, e prometo a mim mesmo que vou ligar para ele mais tarde. Se realmente era David no meu quarto ontem, ele merece uma explicação.

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