07 - A Garota e a Destruição - Parte 5

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— Ressuscite este Oompsi ! — semelhante a um hamster terráqueo de tamanho maior misturado com um esquilo. Maika clama para que Micaela o traga de volta à vida.
— Eu não consigo... Eu não... — a moça boliviana começa a chorar.
— Não seja fraca. Não seja fraca — a treinadora de marcantes olhos azuis insiste.

Enquanto isso, o bichinho está caído no canto da sala. Micaela se lembra de quando ele estava a correr e, então, começou a se contorcer, ao passo que ela fazia o seu coração parar de pulsar com a força do seu poder.

O bichinho agonizando.
O bichinho agonizando.

— Micaela! — Maika a traz de volta de suas lembranças recentes e traumáticas, ao gritar seu nome.
— NÃO! — a garota foge em lágrimas da sala.

O semblante da instrutora cai e ela massageia as têmporas.

***

— A comida faz tudo compensar. Sempre — Anne comenta com Olívia, ao colocar um tipo de pão redondo e bem claro na boca. — Eu nunca pensei que a comida desses esquisitos seria tão gostosa. Sei lá. Só sei que esse pãozinho é bem mais gostoso do que aquele pão preto que tem lá de onde eu venho. — Anne tenta expor seu pensamento entre uma mordida afoita e outra na sua refeição.
— Acredito que seja saudável. — Olívia examina o alimento em sua mão, de ponta a ponta, enquanto tenta disfarçar o nojo que busca escapulir em seu rosto.
As outras três que faltavam chegam. Micaela vem sendo consolada por Alice num abraço. Então, elas se juntam às outras que almoçam em uma mesa preta de metal em uma pequena clareira isolada num dia parcialmente nublado.
— E então, como foram os treinamentos de vocês? — Olívia questiona com um tom de voz avaliativo, somado a uma empolgação cordial e falsa. Ela nem espera a resposta das outras e diz mais:
— O meu foi muito bem. Consigo quebrar várias rochas só com a força das minhas mãos. Enfim, sempre fui talentosa.
Os seus olhos rastreiam por alguma ovação. Mas, o que ela recebe é Sonia revirando os olhos e dizendo:
— Você é tão americana.
Olívia mostra pelo rosto que não esperava por essa resposta.
— Ei, o que você quis dizer com isso? — ela até chega a perguntar com cuidado, mas é interrompida.
— Eu sou um fracasso — Micaela desaba a cabeça entre os braços apoiados sobre a mesa. — Eu sou uma assassina. Só vim ao mundo... Aos mundos para destruir, destruir, destruir... Matar.
— Caramba — Anne reage ao sentir que pode até que se identificar com a outra.
— Não exagere, Micaela. Não exagere. — Olívia adverte com frieza.
— Nossa, menina! Nem deu tempo de perguntar qual é o seu poder! É de ser um dos Transformers? Ou melhor: dos Decepticons? Se o negócio é destruir, certeza que você saiu de um filme do Michael Bay. Ok, parei. —Anne encerra a sua verborragia  para comer mais um dos punshks, aqueles pãezinhos tão simpáticos.
— Explique direito — Olívia pede, assumindo um tom mais empático, ao acariciar o braço da jovem boliviana que chora.
— Eu não quero falar — ela se fecha ainda mais em seu casco.
— Seja adulta! — Olívia a repreende.
— Quem você pensa que é? — Alice se indigna com a ruiva de Chicago. — Você se acha muito superior, né? Vamos, Mica. Vamos comer em outro lugar. — E, então, a brasileira guia a companheira latino-americana para uma outra mesa idêntica ali.
— A comida, você tem que ir pegar naquele quiosque ali! — Anne grita pra as duas, de boca cheia. Ao se virar novamente para Olívia, ela se depara com a professora americana que tem super-força, meneando.
— Eu sei. Eu me lembro do que você me disse ontem: "você é europeia. Devia ser mais educada!". Querida, eu vim ao mundo pra confundir mesmo. Um patinho feio, uma ovelha negra em todo lugar. Eu era A ESQUISITA de onde eu vim. Tô nem aí. É assim que eu gosto — Anne põe uma mecha do seu cabelo rebelde para trás da orelha e leva mais punshks à boca.
Olívia responde com uma risadinha distraída, enquanto passa o dedão sobre onde deveria estar o seu anel de noivado. Ela se perde em pensamentos.
— Uma família... — Sonia comenta do nada, com um tom de zombaria.
— Ahn? — Anne com a boca cheia.
— Nada. Coisa da Micaela — a russa sai da mesa, tirando sarro do que a médica iniciante de La Paz tinha dito mais cedo: que elas eram uma família. Entre as duas que ficaram à mesa, Olívia e Anne, só se ouve o som dos pássaros e alguns grunhidos de animais estranhos para as terráqueas. Ah! E o delicioso farfalhar das folhas das árvores. Então, o suspiro satisfeito de Anne quebra a falta de diálogo.
— Terminou, Anne? — Olívia pergunta com um riso debochado preso no rosto. Como você pode estar tão plena após ter sido instrumento para matar alguém? Foi tão difícil pra mim.
— Agora, com certeza — Anne suspira mais uma vez, aliviada. — Tô satisfeita de verdade. Só não queria ter matado alguém para estar comendo esse pãozinho delicioso. Tá vendo. Até me esqueci do sabor dele. Droga!

***

SETE - Volume I [COMPLETO]Where stories live. Discover now