Capítulo 9 - Rafael

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Rafael

Todos nós já havíamos conhecido Lexie aos pedaços. Boa parte de seus silêncios, lágrimas e pensamentos reservados foram causados pela saudades que tinha de sua mãe, a mesma que um dia ela acreditou que tivesse poder de matá-la. Não matou. Pelo contrário, fez dela uma menina mais corajosa. E se tinha algo que essa coragem lhe proporcionava era atitude. Lexie tinha atitude para dar, vender e emprestar. Sua dor? Ela a guardava escondida aos olhos de quase todos. O único momento à onde ela se permitia senti-la era sentada no nosso balanço enquanto o vento secava suas lágrimas e as vezes nós também. O importante é que ela aguentava firme. Ela aguentava a vida. Talvez porque tivesse pensado que ela não seria tão injusta ao ponto de lhe tirar mais nada.

Se pensou, estava errada. E descobriu isso da pior maneira possível.

Em todo o tempo que ficamos um ao lado do outro eu nunca havia visto Lexie tão transtornada quanto no momento em que Lenore tirou Aurora de nós. Era como se ela tivesse desaparecido em algum lugar dentro de seu próprio corpo. Então eu soube que toda aquela coragem que ela nos mostrava não era a prova de tristeza e sim tinha limites. Talvez o limite tenha sido perder Viviene e tudo o que lhe foi tirado depois foi mais do que ela podia suportar. Ou talvez tenha sido o fato de que Viviene a preparou para viver uma vida sem mãe, explicou o que ela deveria esperar e como deveria se comportar.

Ninguém lhe preparou para perder Aurora.


Descoberta

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Descoberta

Dez anos antes

Lexie permaneceu muito tempo olhando para a porta depois que ela foi fechada e eu permaneci muito tempo olhando para ela. Seus olhos não se moviam. Estavam estáticos, absorvendo o que tínhamos acabado de visualizar. Mais machucados. Foi isso o que vimos. Dessa vez eram mais intensos e escurecidos e eu podia apostar que estavam doloridos. Como eles teriam surgido? Eu não sabia. Mas tinha certeza que Lexie sim. Foi como se ela soubesse antes de mim que não havia mais esperança para Aurora.

— Vai ficar tudo bem. — Garanti de maneira incerta sem saber mais o que lhe dizer. — Dessa vez ela pode mesmo ter se machucado sem querer. — Eu era inocente. Jamais teria pensado que alguém, muito menos a própria mãe faria mal a Aurora. Aquela não era a minha índole, não era a minha vida. Era inconcebível demais.

— Não, não vai. — Sussurrou mortificada colocando ambas as mãos sobre a porta fechada. — Você não vê? — perguntou se voltando pra mim. Seus olhos eram um poço de solidão e medo, muito medo. Mas eu não sabia o que fazer porque eu não via nem ouvia nada. Tudo dentro da casa estava no mais absoluto silencio.

Talvez eu não quisesse ver. Não quisesse entender.

Talvez eu só quisesse ser criança por mais tempo.

Enquanto seus pés não tocarem o chão - Aurora & RafaelLeia esta história GRATUITAMENTE!