Capítulo 10.

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É como se nós estivéssemos de mãos dadas

Com todos os nossos medos a margem

10 anos antes...

- Leo! Pega! – vejo uma bola se aproximando de meu rosto e ergo as mãos, protegendo-me. Fecho os olhos e aguardo o impacto, que me derruba no chão.

- Leo! – abro os olhos e vejo que o garotinho surgiu ao meu lado, o sorriso que até então iluminava o rosto desaparecera, ele parece preocupado. – Machucou?

Sorrio mostrando os dentes, como quem diz que está tudo bem, e o garotinho se joga na grama, as pernas sobre as minhas.

- Desculpa. – ele pede, olhando para o céu.

- Por quê? – o olho de esguelha, confuso.

- Porque eu te machuquei. E EU sou o mais velho, então tenho que cuidar de você! – ele se vira novamente, olhando para o céu azulado sobre nós. Parece irritado. Já vi essa determinação antes, nestes mesmos olhos. A mesma vontade de cuidar, proteger. De ajudar.

- De agora em diante, você é minha responsabilidade, Leo. – ele se apoia nos cotovelos, olhando-me seriamente. – Vou cuidar de você.

- Promete? – pergunto, sentindo-me especial.

- Prometo! – ele praticamente berra. – Nada de ruim vai acontecer com você, Leo. Eu serei o seu guardião sempre!

Acordo de meu torpor quando escuto o carro do vizinho chegando, e entro em casa, com a cesta vazia em mãos.

Abro a porta com um supetão, fazendo barulho ao entrar. Assusto minha mãe, que chega na sala correndo, preocupada.

- O que... O que aconteceu, Leo? – ela se aproxima, puxando a cesta de minhas mãos. Deixo-a pegar o caderninho também, e corro em disparada para meu quarto assim que fico livre. Tropeço nos degraus e caio, mas levanto-me rapidamente e entro no quarto, trancando a porta antes que mamãe me alcance.

A lembrança daqueles dois garotinhos brincando me vem à cabeça novamente, eu desabo. Deixo as lágrimas que estava segurando caírem, e entrego-me ao choro, desolado. Sinto a porta tremer com as batidas insistentes de mamãe, mas não a deixo entrar.

Encosto os joelhos no peito e apoio a cabeça nas mãos, enroscando os dedos no cabelo. Segure, Leo, segure firme! Não tenha um surto! Não tenha um surto!

Engasgo com os soluços e não consigo respirar. Entro em pânico. Ponha a cabeça nos joelhos, Leo, você vai se sentir melhor. Abaixo a cabeça, fazendo o que a voz infantil do garotinho me dissera há dez anos, mas, desta vez, não adianta muito. Não consigo me acalmar, meu peito está tremendo com os soluços, e minha visão embaçada. Fecho os olhos e tento engolir golfadas de ar, os punhos cerrados.

Dou um pulo quando sinto algo me tocando, mãos quentes e reconfortantes. Ignorando a minha vozinha interior que diz que pode ser um ladrão, deixo que os braços do desconhecido me envolvam, e inclino-me em sua direção. Ele ou ela me abraça ainda mais forte, deixando que eu molhe sua camiseta com meu rosto encharcado de lágrimas.

Ouço sua voz rouca cantando para mim, uma canção que eu não conheço, e logo caio no sono.

David

Ligo para Leo mais uma vez, mas a ligação cai na caixa postal. Preocupado, mando mensagens e tento novamente. Ele deve ter se esquecido de que iriamos nos encontrar hoje. Também, né, David. Mandar mensagens às duas da manhã? Leo com certeza estava grogue quando respondeu, nem deve ter percebido.

Ou algo aconteceu. Meu lado paranoico fala mais alto, e, pedindo a conta do café, sigo em direção à casa de Leo. Mando mais algumas mensagens durante o percurso, mas, como ele não responde a nenhuma, fico ainda mais decidido a continuar.

Parando em frente à residência, ouço alguns gritos femininos, que eu imagino serem da mãe e irmã de Leo, pois os sons vem de sua casa. Bato apressado na porta, e alguém a atende: uma adolescente. Mesmo sendo diferente de Leo fisicamente, eu sei que ela é a sua irmã, Magda.

Magda não me faz perguntas, só me deixa entrar. Talvez imagine que eu posso ajudar no que quer que esteja acontecendo.

Sigo-a até o andar de cima, onde uma mulher mais velha esmurra uma porta, a do quarto de Leo, imagino. Ela puxa a maçaneta de tempos em tempos, talvez imaginando que o filho vá destrancar a porta de repente.

Num surto de adrenalina, desço as escadas de dois em dois degraus, quase atropelando um dos gatos, e corro para fora. Dou a volta na casa, parando embaixo da janela do quarto de Leo, e vejo uma escada de madeira jogada no fundo do quintal. Corro para pegá-la, a equilibro na parede e a escalo rapidamente. Pulo a janela (que estava aberta), e caio dentro no quarto com um baque.

Meu coração se contrai de dor e desespero quando o vejo. Leo está encolhido na frente da porta, apoiado na madeira. Chego de mansinho para não assustá-lo, ponho os braços ao seu redor e sento-me ao seu lado. Sinto seu corpo se retesar de início, mas ele logo relaxa, inclinando-se para perto de mim, deixando-me abraçá-lo.

A cabeça de Leo cai em meu peito, e eu mexo em seus cabelos, cantando uma de minhas músicas favoritas, até que ele adormece.

Quando o faz, carrego-o até sua cama, impressionado com sua leveza, destranco a porta e deixo sua mãe e irmã entrarem. Ao verem-no calmo, elas suspiram aliviadas, e eu viro-me para sair. Uma mão me puxa levemente, e Magda aperta minha mão em agradecimento. Sorrio em resposta, e sigo em direção à saída.

Fechando a porta da sala de estar ao sair, pergunto-me o que diabos acabou de acontecer.

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