Capítulo 9.

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Com você, eu sou uma bela bagunça.

- Leo? O que está fazendo dormindo aqui na sala? – mamãe me acorda pela manhã, ao chegar do trabalho. Está com uma aparência cansada, o rosto pálido e os olhos caídos, com olheiras enormes. Além de fazer pães e doces para vender aos vizinhos e conhecidos, ela ainda trabalha como faxineira numa escola aqui perto. Dizer que mamãe se mata por nós é apelido. Ela faz mais do que isso.

- Acordei mais cedo com fome. – minto, mas não é bem uma mentira, já que eu realmente comi mais cedo.

- Eita. Será que os remédios estão tendo mais efeitos colaterais? Está na hora de trocar. – ela fala, preocupada. Para minha mãe, sempre que me sinto diferente ou meu corpo responde diferente a alguma coisa, é culpa dos remédios, o que significa que é hora de trocá-los. Mas eu não quero trocá-los. Eles são melhores do que os últimos, e, mesmo sentindo cansaço, insônia, fome de mais ou de menos de vez em quando, não são efeitos tão ruins. Já vivi com piores, e não estou nem um pouco querendo voltar à eles.

- Você deveria ir dormir um pouco, mãe, parece cansada. – eu falo, reparando que ela está grogue de sono.

- Ah, Leo, eu não posso. – mamãe força um sorriso cansado. – Hoje é dia de entregar os doces. E os pães. – ela levanta um dedo, apontando para a cozinha. – Não posso simplesmente dormir quando bem entender.

Sinto um peso cair sobre meus ombros. Sei o que deveria fazer neste momento, mas não quero fazê-lo. Deveria oferecer-me para levar os pães, para vende-los enquanto minha mãe tira seu tão merecido descanso, mas eu não posso. Não posso sair, não posso encarar aqueles olhos, aqueles sorrisos de penas e aquelas pessoas. Mas e ela? Não merece dormir nem que seja por um período curto de tempo? Deixe de ser egoísta, Leo! Ofereça-se!

- Eu vou. – exclamo, mas, quando tento voltar atrás, minha mãe dá o maior sorriso que eu já vi. Quero chorar só de vê-la assim, sorrindo de verdade em tanto tempo, seus olhos brilham, e eu tento ficar feliz por trazer esse brilho de volta, mas aí eu me lembro de que fui eu quem o tirou, para começo de conversa, e paro de me sentir responsável por tal.

- Tem certeza, Leo? – ela pergunta, tentando disfarçar a alegria.

- Tenho. Claro. – minto, contorcendo os dedos de nervosismo.

- Ai que bom, meu filho! – mamãe me abraça, deixando sua bolsa cair no chão, pouco se importando quando as coisas caem todas para fora, pois o zíper estava aberto. – Vai ser muito bom para você sair um pouco e falar com pessoas. Ficar só dentro de casa não é bom.

- Mas eu saio. – reclamo, mas ela apenas sorri, sabendo que não é bem verdade. Tirando os dias em que vou para reuniões, as vezes em que saio para o supermercado e minhas corridas, eu não saio de casa.

- Eu sei. – mamãe fala, recolhendo suas coisas do chão. – Então eu vou tomar um banho e dormir. Me acorda quando você voltar? – ela pergunta.

- Não é a sua folga? – pergunto, franzindo as sobrancelhas.

- É, mas eu não posso ficar dormindo o dia todo. – ela balança a cabeça. – As cestas estão na cozinha, tá? E no meu caderninho, espera um pouco... – corre para a cozinha, voltando com um caderninho e uma caneta. – No caderninho tem o nome de todo mundo que encomendou, e o preço, tá?

- Certo. – respondo, lendo os nomes, e tentando não entrar em pânico.

- Então tá. – ela beija minha testa. – Até mais, Leo. E toma cuidado, viu? Qualquer coisa, volta para casa que eu vendo, tá?

- Okay. Tchau, mãe. Boa noite. – ela ri com a última parte, e então sobe as escadas. Ouço a porta do quarto se fechar, e respiro fundo. Vamos lá, Leo.

- Leo, que surpresa! – Carla, a mulher que mora na esquina de casa exclama quando me vê. E ela realmente parece surpresa. Seus olhos parecem querer saltar das órbitas oculares, e ela parece em extremo pânico. Qual é, não vou surtar não, relaxa. Quem parece estar querendo surtar é você, Carla, não eu. Penso, mas é claro que não falo em voz alta.

- Bom dia, Carla. – eu falo, respeitosamente, enquanto mexo na cesta, procurando seu pedido. – Dois pães, certo? – abro o caderninho para conferir. Como não consegui carregar todas as cestas (não sei como mamãe faz as entregas, pois nunca prestei a atenção), decidi entregar os pães primeiro, então estou carregando uma cesta enorme e equilibrando-a no braço enquanto recebo o dinheiro e entrego os pães para Carla. Ambos embrulhados em sacos plásticos.

- Muito obrigada. – eu falo, já partindo para a próxima casa. Não me viro para olhá-la, mas sei que Carla está observando cada passo meu. Até que não foi tão ruim.

Risco o nome de Carla no caderninho e aperto a campainha do próximo cliente. Respiro fundo algumas vezes, até que a moradora atende.

- Ai meu Deus! Leo! – dona Jéssica me puxa para um abraço antes mesmo que eu a cumprimente com um bom dia, e eu luto para não derrubar a cesta no chão. – Que bom ver você saindo de casa! Ah, sua mãe deve estar tão feliz! Entre, entre.

- Ahn, não eu só... – tento dizer que não posso ficar, pois tenho outras entregas para fazer, mas ela não me ouve, e me puxa para dentro de casa.

- Venha cá, sente-se. – faz com que eu me sente no sofá, de frente para ela. – Como está se sentindo? – dona Jéssica cruza os braços e me olha firme.

- Bem. – respondo, desconfortável.

- Você sempre foi um péssimo mentiroso, menino. – ela chama minha atenção, o dedo em riste. – Vamos, pode conversar comigo. – sorri, mas eu não falo nada. Sei que dona Jéssica quer que eu confie nela e em sua família novamente, mas eu não posso. Não consigo.

- Estou bem. – sorrio, e limpo a garganta. – Eu realmente preciso ir, dona Jéssica. – ignoro o olhar magoado que ela me lança, focando meus olhos num retrato ao lado da TV. O garoto da foto está usando um terninho com gravata borboleta, e parece emburrado por estar com tal vestimenta. – Preciso leva-los. – levanto a cesta de pães, e ela acena com a cabeça, concordando.

- Tudo bem. Mas, Leo. – chama minha atenção. – Fica bem, tá?

- Certo. – concordo, recebendo o dinheiro e lhe entregando os pães. – Obrigado.

- Eu é que agradeço. – dona Jéssica pega minhas mãos nas suas. – Por tudo. Tudo mesmo.

Saio da casa com a garganta apertada, mas consigo segurar o choro até entregar todas as encomendas e voltar para casa.

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