Capítulo 25: Queda

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— Quem nasce em Prama é forte por natureza – a moça disse, com o peito estufado. — Imagine ter que crescer em um lugar com ventos de no mínimo trinta quilómetros por hora e chegando a duzentos em seu pico.

— Deve ser incrível – o rapaz respondeu com indiferença. — Pena que você não nasceu em Prama.

Ela o fitou da cabeça aos pés, medindo-o com olhos de suspeita. Ele vestia um casaco pesado com mangas arregaçadas, seus braços tinham desenhos de linhas emendadas, lembrando uma placa de circuitos de um computador. Os cabelos enrolados chegavam até a altura dos ombros e uma máscara de respiradores cobria sua face, deixando apenas os olhos visíveis. A seriedade do rapaz a deixava inquieta.

Ela parou de olhá-lo e admirou a paisagem à sua frente. Nuvens azul escuras moviam-se em diferentes correntes no planeta gasoso devido à sua atmosfera dividida em diversas faixas de diferentes latitudes. Ela moveu as lentes na direção dos olhos e ajustou melhor para enxergar a gigantesca tempestade tomando o horizonte. Segundo o Acrux, aquela era a maior tempestade já formada no Universo. Dentro dela, cabia o equivalente a onze vezes o tamanho da Terra, seu planeta natal. E a tempestade só tomava uma parte de Prama.

A moça se lembrou de que planetas gasosos dificilmente eram colonizados. Com aquele, não era diferente. Cercados pelo espetáculo de nuvens correndo de um lado para o outro, cuspidas para fora da rainha das tempestades ou atraídas para ela como um imã, a dupla assistia a tudo de cima de uma instalação móvel construída com estruturas de metal fortes o suficiente para resistirem às forças em atividade. Enormes cata-ventos transformavam as correntes de ar em energia para manter o lugar acima das nuvens. A única forma de se viver em planetas gasosos era sobre construções flutuantes como aquela.

Graças a seu cinto com Campus especial, o rapaz não era tragado pelos ventos de mais de cem quilômetros desfilando sob a atmosfera misteriosa. A moça estava acostumada com aquela força, já que passara boa parte de sua vida ali. Ela lembrou-se de Paracelso, o continente flutuante em que viveu boa parte de seu treinamento militar. O lugar devia estar longe deles. Em um mundo gasoso, não há mapas precisos, era o que seu tio dizia. Paracelso poderia até mesmo ter sido tragado pela rainha das tempestades que fazia a grande mancha vermelha de júpiter parecer uma brisa de verão.

— Acho que eu não estava preparada para voltar aqui – ela disse, sentindo pontadas dolorosas em seu estômago.

— Pode esperar lá fora, se quiser – o rapaz revidou.

— Sim, Argan, você já deixou bem claro que não precisa de mim por perto, mas não vai se livrar de mim assim tão fácil – ela sorriu desafiante. — Além disso, se eu não cuidar de você, é capaz de você despencar para o núcleo do planeta e morrer.

— Estou destinado a algo bem mais promissor do que uma morte estúpida como essa – ele respondeu, sem um pingo de emoção em sua voz.

— Aiai, que cara difícil de entender uma simples piada – ela meneou a cabeça. — Você tinha mesmo que marcar esse encontro bem aqui?

— Eles quiseram. Quando eles chegarem por aqui, afaste-se. Eu não quero que você se machuque.

A moça riu alto, enquanto Argan não esboçou reação alguma, sempre com o mesmo semblante de seriedade.

Da ponta da tempestade, surgiu uma Holonave semelhante a uma caravela, velas agitadas contra o vento, flutuando sobre as nuvens turbulentas ao invés do mar. A dupla concluiu que eram aqueles que esperavam no interior do veículo. De perto, a Holonave era grande o suficiente para cobrir toda a plataforma onde estavam.

Uma comporta de metal abriu para fora e uma plataforma se desdobrou. Um Ánima com rosto de golfinho e corpo humanoide apareceu, com uma pequena caixa debaixo do braço, vestindo um chapéu pontudo e sobretudo esfarrapado.

— Argan Hall e Daina Alamar – cumprimentou o Ánima com uma leve inclinação de coluna, a voz esganiçada.

— Teberus Bolias – respondeu a moça, imitando seu cumprimento.

Argan não se moveu.

— Você trouxe o que nos prometeu? – Argan foi direto ao assunto.

— Sim, é claro-ho. Está aqui, nessa caixa-ha. – sorriu Teberus, com dentes minúsculos da face de golfinho. — Agora-ha, devido a problemas para conseguir a encomenda e aos prejuízos que tivemos durante a viagem para consegui-la-ha, eu e minha equipe fizemos uma reunião e decidimo-hos que o preço será um pouco diferente do combinado-ho.

— Diferente? – Argan abaixou a cabeça, os olhos cobertos pelo visor negro foram ainda mais ocultados pelo capuz desproporcional.

Daina balançou negativamente a cabeça.

— Não, não, é melhor não fazerem isso – pediu ela.

— Será oitenta mil Coins-his. Desculpem, mas é o que vale-he – o Ánima respondeu, e olhou para cima. Na proa de sua Holonave em forma de navio, brotaram diversos outros Ánimas com armas na cintura, mostrando-as a fim de intimidá-los.

— Um preço diferente – repetiu Argan.

— Sério, façam o preço combinado e saiam daqui – Daina deu alguns passos para trás.

Ela trombou em um mastro longo e olhou para o céu, de onde caía uma garoa fina que se transformaria alguns quilómetros à frente na Rainha das Tempestades. Olhando para o mastro com a bandeira de Galataris em farrapos, veio aquele aperto em seu peito, com as memórias da destruição daquele planeta, da queda dos seus soldados e do envio de seu irmão Érico para outro lugar do Universo. Um estrondo vindo da Holonave à frente a tirou de seu transe.

Ao voltar os olhos para frente, franziu as sobrancelhas.

O veículo havia se partido em dois, enquanto os Ánimas flutuavam no ar, em meio aos destroços, presos entre os entulhos por uma força maior do que eles. Vigas retorcidas de holograma azul perfuraram seus corpos, em ferimentos não mortais. Eles se desesperaram, gritaram e imploraram por suas vidas. À frente deles, como um maestro regendo uma orquestra, estava Argan, de costas para ela, controlando a máquina despedaçada com um Campus pesado ao seu redor. Um Campus capaz de possuir outros Campus e manipulá-los.

Um dos cabos enrolava Teberus, apertando seus pescoços e seus braços.

— Você sabe quem eu sou? – perguntou Argan, com a mesma voz desprovida de sentimentos. — Já ouviu falar de Antares?

— N-n-não senhor-ho!! Por favor, nos deixa sair-hi – implorou Teberus, cada membro do corpo esticado para um lado.

— Sabe todo esse Universo em que você vive? Eu sou o herói que está destinado a salvá-lo.

— S-sim... sim senhor Argan-ha... por favor, nos deixa ir-hi...

A caixa flutuou retorcendo-se até a mão esquerda de Argan, que abriu-a com os dedos para ver o conteúdo. Daina espiou ao lado dele. Havia, como esperado, uma Bússola Universal.

— NÃO NOS MATE!! POR FAVOR!! – gritou uma Ánima com aspecto de leoa humanoide.

— Matar? – o rapaz ergueu os olhos ocultos cheios de compaixão para a Ánima. — Eu sou um herói. Estou aqui para salvar, e não para matar.

Os olhos dos Ánimas pareceram aliviados, ainda que estivessem presos entre as ferragens holográficas. Daina novamente franziu as sobrancelhas.

— Porém, estimulo os mal feitores a mudarem seus estilos de vida. Geralmente é preciso que caiam para aprenderem a lição. Nada como uma queda para nos ensinar.

O que tinha sobrado da Holonave despencou em queda livre na direção das nuvens turbulentas, puxando os Ánimas com ela para a queda, seguidos por seus gritos cadentes.

Daina soltou um bufo consternado.

— Precisava disso?

— Vamos, Daina. O Absoluto já deve estar juntando seus aliados. Precisamos de um grupo de heróis para derrubá-lo. A tempestade está se aproximando de nós. Já acabamos por aqui.

— Sim – ela fitou o horizonte turbulento. — E não é uma tempestade comum. É a Rainha das Tempestades...

Absolutos I - A Sinfonia da DestruiçãoOnde as histórias ganham vida. Descobre agora