Loli

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Minhas mãos suavam e eu as secava constantemente na calça jeans.
Vini estava cinco minutos atrasado, o que era normal, afinal, ele nunca era pontual, mas me deixava ainda mais nervosa.

Meu moletom do The Librarians era folgado demais para o meu corpo magricela. A foto do Ezekiel já estava desbotada pelo tempo e pelo uso, pois fora o primeiro moletom de uma série que eu ganhara. The Librarians me arrancou risadas quando eu não sentia mais vontade de sorrir, a série misturada com o afeto da minha melhor amiga e a paixonite repentina pelo Vinicius me fizeram melhorar muito.

Parei de remoer memórias quando vi
Vinícius entrando na lanchonete. O cabelo estava escondido por uma touca cinza, que combinava com o moletom cinza e preto. A calça jeans parecia amassada, como se tivesse sido tirada da secadora antes do tempo e os olhos pareciam percorrer as mesas do lugar com tamanha veracidade que eu queria poder ficar invisível para que ele não me visse.

Acenei em sua direção e seu olhar se fixou em mim. Vi-o mover os lábios e logo depois, à passos largos, vir até mim. Senti cada gota do meu sangue sumir do meu rosto quando ele parou à minha frente e me fitou os olhos. Raiva, reconhecimento, angústia. Vi todos esses sentimentos passarem pelos seus olhos de uma vez antes que qualquer um dos dois dissesse qualquer palavra.

-Oi, eu sou a Loli.

-Você... - saiu mais como um sussurro, como se ele considerasse ir embora e me deixar sozinha.

-Vinicius, por favor, me deixa explicar. - pedi, pousando uma das minhas mãos sobre a sua. Minha voz falhava e eu sabia que meus olhos estavam marejados. Perdê-lo agora poderia ser pior do que antes.

-Você tem três minutos.

-Depois daquela noite, eu fiquei muito mal. Não era minha intenção te deixar daquele jeito, mas, quando fui pedir desculpas e tentar me explicar, seus amigos sempre me afastavam, dizendo que eu tinha acabado com você e que era tudo minha culpa. Eu acabei aceitando isso. Mudei de colégio, de apelido e de estilo. Todos conheciam a Lauren Cruel, mas ninguém conhecia a Lolo. Loli é me apelido em casa, já que o meu irmãozinho, o Paulo, não sabia falar Lauren.

-Por isso eu te achei familiar no mercado, outro dia. - apenas assenti e apoiei meu rosto nas mãos, sentindo-me tonta. Contar essa história para alguém que não fosse minha psicóloga era uma coisa difícil.

-Meu medo era que, se você me conhecesse, se lembrasse daquilo e nunca mais falasse comigo, ou gritasse comigo, talvez o pior seria se você virasse de costas e fosse embora sem dizer nada.

-E o que você acha que eu quero fazer agora?! - seu tom de voz aumentou. Me encolhi na cadeira e baixei o rosto, sabia que merecia aquilo.

-Vai embora, então. Apaga o meu número e segue sua vida. Você não precisa de mim, Vinícius. Acho que eu quem preciso de você - uma lágrima correu pela minha bochecha, mas logo tratei de secá-la - Eu era conhecida na cidade inteira como Lauren Cruel depois daquela noite. Me perseguiam com apelidos piores o tempo todo. Conseguir seu número me pareceu uma boa oportunidade de corrigir tudo, mas a aposta não era assim. Eu tinha que conseguir algum podre seu, mas tudo ia se repetir, a Lauren Cruel ia voltar. Não era o que eu queria. Eu só queria uma outra chance, e, assim, surgiu a Loli. A minha chance.

-Me iludir com uma pessoa que não existe? Essa era a sua chance?! - tentei realocar os pensamentos. Era difícil pensar com ele ali, olhando pra mim como se os últimos anos não tivessem passado.

-A Loli existe! Ela sou eu! - me levantei e gritei. Não aguentava mais sentir a culpa pesando em meus ombros. Tirei o moletom e o coloquei na mesa, para que ele pudesse ver minha mudança. Anos atrás, eu tinha um corpo de adolescente invejável para qualquer uma, porém, com o tempo e a depressão, eu emagreci demais. Meu cabelo castanho escuro, antes na altura dos ombros, já passava do meio das costas, eu havia perdido meu corpo e, agora, escondia o que restou com motelons e calças jeans.

- Você é inacreditável. - foi tudo o que ele disse, antes de dar-me as costas e sair da lanchonete. Meu coração estava aos cacos novamente. Sabia que era o que aconteceria, já imaginava. Recoloquei o moletom e disquei o primeiro número que me veio à cabeça.

-Hanna? Está em casa? Ótimo. Estou indo aí.

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