Capítulo 8.

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Com você eu caio, e é como se eu estivesse deixando todo o meu passado.

Sinto minhas costas doerem mais uma vez, e, nesta, consigo abrir os olhos. A luz do abajur me cega por um momento, e eu volto a fechá-los. Respiro fundo, tapando as pálpebras e abro um olho de cada vez, situando-me. Estou no quarto de Magda, que ela divide com nossa mãe. Minha irmã está dormindo em sua cama, próxima à na qual eu estou. Coberto até o pescoço, ergo a cabeça, procurando minha mãe, mas então lembro que ela deve ter saído. Deve estar trabalhando. Sinto algo quente em meus pés, e, quando olho, vejo que Joaquim está dormindo bem em cima de ambos. Mexo os levemente, sentindo calor, mas o gato nem mesmo abre os olhos.

A casa está silenciosa e escura, então já deve ser de noite. Sinto-me pesado, meu rosto está inchado e seco, assim como a minha boca. Devo ter chorado até dormir.

Não me lembro de como vim parar aqui. Será que mamãe me carregou? Ela é forte o suficiente para fazê-lo? Apesar de que eu não sou tão pesado, puxei a estrutura pequena e magra de meu pai, enquanto Magda puxara o corpo grande de mamãe, assim como seus lábios finos. Já os meus são cheios e avermelhados, novamente, como os de meu pai. Quando era mais novo, minha mãe vivia dizendo sobre como eu era parecido com ele. Mas eu não sou. Nem um pouco. Parecido. Com ele.

Levanto-me lentamente, sentindo a cabeça pesada. Calço os sapatos antes mesmo de perceber o que estou fazendo, pego meu celular e os fones de ouvido, e deixo a casa, tentando não fazer nenhum ruído e acordar minha irmã.

A rua está vazia e fria, silenciosa. Andando devagar, observo as casas, todas escuras. Um cachorro late quando passo em frente à casa onde vive, e eu sorrio ao tomar um susto.

Continuo a caminhar, chuto pedrinhas e me equilibro nas guias das calçadas, olhando para o chão o tempo todo, com medo de cair.

Ergo a cabeça, encarando o céu. Já está amanhecendo, pequenos pontos de luz iluminam a escuridão da noite, que, aos poucos, vai sumindo. Chego a uma praça e me sento em um dos bancos, cruzando as pernas em posição de ioga, olhando para o céu. Aos poucos, a cidade vai se iluminando, e eu respiro fundo ao ver a mágica acontecer. Raios de sol clareiam o céu rapidamente agora, as cores dançam no seu, misturando-se até tornarem-se alaranjados e brilhantes. É a coisa mais linda que já vi na vida. David iria gostar disso, das cores, da textura, da luz. De mim? Não, não de mim.

- Não é para pessoas como você, Leo. – sussurro para mim mesmo, por cima da música que explode em meus ouvidos. – You deserve forever, not a boy looking for better. But as long as you're still here, I'mma try to keep you near.

Abraço os joelhos, cantarolando os últimos versos da música baixinho, e, quando ela acaba, finalmente vou para casa.

Joaquim me recebe quando eu abro a porta. Esfrega-se em minhas pernas ao passar e some na rua, sendo seguido por Papa Léguas, que nem mesmo me olha ao passar por mim.

Pego um dos cookies que Magda fez na noite anterior, guardados na geladeira e o enfio na boca. Estão deliciosos! Carrego a tigela para a sala, sento-me no sofá e ligo a TV, colocando os pés na mesinha de centro. Como todos os cookies, e, depois de muito aguardar, o sono finalmente chega.

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