07 - A Garota e a Destruição - Parte 1

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A orla da vestimenta azul marinho de Dulan balança ao vento das ruas de La Paz naquele crepúsculo de inverno. Aquela senhora extraterrestre caminha com um bebê enrolado numa manta em seus braços ao lado de uma jovem mulher. Essa última veste uma calça jeans de cintura alta, um cinto de couro e uma camiseta cor de creme por dentro. Coisa do final dos anos 80.

- Há nela um grande poder de destruição que será útil no tempo certo.
E nesse tempo, eu virei buscá-la. Mas até lá... Cuide muito bem dela. - Dulan instrui e lhe entrega a bebê numa manta rústica cor de poeira que a envolve.
A moça que recebe a criança em seus braços tem em seu olhar carinho e cuidado, mas também uma preocupação latente, que incomoda, que estraga o tom de possível felicidade. Em sua consciência, garoa cada vez mais forte, o peso da missão que acaba de receber: cuidar daquela criança especial.

—Micaela... — Aquela jovem mulher nomeia a menina em seus braços e levanta os olhos para a mais velha, buscando afirmação.

— Bonito nome, Horai. — Dulan aprova, com um olhar levemente caloroso a escolha da outra, que com seus cabelos negros lisos e flutuantes ao vento urbano, enfeita a paisagem  daquela capital sul-americana que se recupera de uma ditadura militar.
O olhar tenro de Dulan, daquela senhora de túnica azul marinho, que tanto conhecemos por ter reunido as sete, é, com certeza, uma raridade dos dias de então e de até agora pouco.

Dias de guerra; dias que não acabaram nunca mais.

Dias de guerra; dias que não acabaram nunca mais

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*

— Acorda, acorda! — Anne desperta Micaela com chacoalhadas até que não muito pesadas.

— Ai, tá tão boa essa cama. — Micaela resmunga virando de lado em seu leito.

A jovem boliviana despreza totalmente o furor que acontece ao seu redor, enquanto as outras quatro se arrumam para o primeiro dia de treinamento.

Naquela sala subterrânea de paredes de pedra e algumas raízes de árvores,  uma parte das famosas sete corre, enquanto se vestem de macacões de um branco um pouco empoeirado e se preparam para o início de um processo onde descobrirão quem são e como podem proteger os seus familiares.

— Acorda, acorda! Não é só porque você tá grávida que você pode dormir o dia inteiro. — Anne caçoa Micaela mais uma vez ao acordá-la com leves empurrões.

— Acho que o seu poder, mesmo, vai ser o super sono ou de botar os outros pra dormir, porque olha...— Anne zomba rindo e amarrando o cinto de couro que tem o símbolo que identifica de qual das sete grandes famílias do sul ela descende.

— Deixa ela em paz! A menina tá grávida! — Alice defende a garota enquanto arruma o cabelo encaracolado e volumoso em um coque cheio de estilo.

- Mas, é verdade. Chegar atrasada no primeiro dia de treinamento... Não é legal. Então, vamos levantar? - Olívia discursa toda professora de crianças. Ela já está pronta e impaciente.

- Ai, tá bom... - Micaela resmunga mas começa a se levantar lentamente e confessa:
- Nossa, eu queria ver como a Ruth tá.
- Nossa! Eu também! - Alice concorda toda empática e compassiva. - Apesar de ela só ter sido grossa com a gente o tempo todo...
- Família é família. - Micaela conclui de forma doce após um bocejo. Todas se entreolham espantadas com a declaração. Sônia mostra em seu cenho franzido, o quão ela achou essa declaração estranha. Quase revidou com um "não somos uma família, sua criança! E mais: não seja boba alegre. Pessoas morreram nessa coisa toda; eu matei pessoas nessa coisa toda". Mas, no final das contas, ela só desfez a expressão do rosto e engoliu seco.
- Micaela... Melhor aumentar essa velocidade de acordar. - Anne zomba e saltita pelo quarto de cabeça erguida e peito estufado, achando que já está pronta e arrumada com o seu cabelo loiro descabelado de costume. Um arrumado à sua forma.
- Vocês falam demais. - Sônia comenta enquanto termina de amarrar o cabelo negro e liso em um rabo de cavalo.

O clima é quase de todo leve. Viraram a noite conversando sobre toda a loucura pela qual têm passado, sobre o deserto, a paisagem e as pessoas do sul, evitaram tocar no assassinato de Dulan e trocaram mais informações sobre quem eram na Terra. Sônia foi, novamente, esquiva sobre a sua vida pessoal ao se resumir imigrante russa morando em Londres e executiva de uma multinacional de automóveis. Já Anne se empolgou com o fato de Alice ser uma celebridade que expôs que ser famosa nem sempre é muito bom. Olívia não gostou muito da ideia de que contar que foi premiada 5 vezes consecutiva como a professora do ano não seria páreo para os relatos da euforia de fãs tentando invadir o quarto de hotel de Alice. Mesmo assim, arqueou as costas e engrandeceu o olhar e contou, lutando para manter o orgulho e assim o fez. Todas fizeram cara de impressionadas. Principalmente, Alice. E ela foi sincera nisso. Micaela logo pegou no sono e roncou. Apesar de tudo o que já passaram e a incerteza que sentem, riram disso. Mal sabem o que o destino - ou as Águas, na visão dos crentes do sul - prepara para elas para este primeiro dia de treinamento.

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SETE - Volume I [COMPLETO]Where stories live. Discover now