Capítulo 7 - Rafael

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Rafael

Existiam pessoas que não entendiam como três crianças pudessem ser tão unidas ao ponto de quererem fazer tudo juntas. E outras que não entendiam de onde vinha tanta maturidade para curarmos as feridas uns dos outros. Não importava se fossem joelhos ralados, mães mortas ou mesmo fingimento. Permanecíamos inabaláveis. E se tem algo incontestável em nossa amizade era o quanto nos amávamos. Não poderia ser de outra forma. Não há como ser machucado tão severamente por alguém que você não ame de todo coração, pelo menos não, quando os machucados conseguem chegar até nossa alma.

E minha alma estava cheia deles.

Machucados

Dez anos antes

— Tem alguma coisa errada Rafael, eu posso sentir. — Murmurou Lexie entrando no meu quarto com brusquidão em uma manhã ensolarada de domingo exalando preocupação e revolta. — Eu já fui até a casa da Aurora várias vezes e em todas elas Lenore me disse que ela não podia brincar. Cada uma dessas vezes por um motivo diferente. — Ela resmungou caminhando de um lado ao outro do cômodo e no processo espalhou os trilhos de trem que eu havia acabado de montar no chão sem nem ao menos se dar conta. Suspirei.

— O que tem de errado nisso? — Perguntei distraidamente recolocando cada trilho em seu devido lugar sobre o tapete. Nem ao menos levantei os olhos. Não me assustava mais quando ela aparecia de repente porque depois da partida de Viviene ela sempre estava na minha casa. Era quase como se minha mãe tivesse ficado responsável por substituí-la no que pudesse e eu adorava sua presença. Bom, talvez menos quando eu estava brincando com meu trem e ela me atrapalhava.

— Foram motivos demais é isso que tem de errado. — silaba sem paciência.

— Talvez eles fossem de verdade. — dou de ombros. Ela parece não gostar da resposta porque espalha meus trilhos com o pé mais uma vez, agora de propósito. — Eu também fui até lá e pareceu tudo normal. — tão normal quando um garoto de sete anos poderia ter achado.

— Será que você pode prestar atenção em mim, Rafael? — Bufa de indignação. Um gesto tão bonitinho que chama minha atenção. — Tem alguma coisa errada com a Aurora. — Afirma categoricamente sem um pingo de dúvida em sua voz firme.

— Não faz tanto tempo assim que ela não aparece para brincar. — Mas fazia. Eu havia tentado não pensar no assunto. Mas foi inevitável e assim como a Lexie estava preocupado. Só não queria que ela se preocupasse. — Eu pedi para mamãe perguntar a Lenore porque ela não poderia vir brincar hoje e ela disse que Aurora estava com febre, mas assim que melhorasse poderia vir.

— Já fazem três semanas. — Murmura ressentida, me ignorando.

— Também estou com saudades dela. — Lexie me encara com um olhar penetrante que me faz entender que não era apenas a saudade que lhe incomodava.

— Ela está diferente, você percebeu? — Sim, eu havia percebido.

Não fazia ideia do porquê, mas algo havia mudado em Aurora.

No começo foram ações imperceptíveis como brincadeiras que ela não queria mais participar ou a falta de seus comentários sempre engraçados e mordazes durante nossas conversas. Depois ela se tornou ainda mais distante, quase solitária quando estava conosco. Por fim ela parou de falar. Lhe perguntamos por diversas vezes o que estava acontecendo. Mas ela nunca respondeu. Então um dia parou de aparecer.

— Percebi. — Sussurrei.

Naquele momento não dissemos nada, apenas nos olhamos. Estávamos dentro da mesma lembrança, revirando-a em nossas mentes. Sabíamos exatamente quando sua mudança tinha começado só não entendíamos o motivo ainda. Aurora não era mais a mesma desde que aquele segredo saiu de seus lábios para dentro do nosso círculo de confiança. O segredo nunca escapou dele, mas partes dela sim. Aurora não sorria mais. Não queria mais brincar. Se recusava a falar conosco. E as vezes chorava quando lhe fazíamos perguntas demais. Era quase como se nossa amiga tivesse deixado de ser nossa amiga não porque não gostava mais de nós e sim como se não fosse mais ela.

Enquanto seus pés não tocarem o chão - Aurora & RafaelLeia esta história GRATUITAMENTE!