Capítulo 7.

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Sem você, eu sou apenas uma música triste. Eu sou apenas uma música triste.

- Leo! Leo! – acordo de supetão, assustado, e com o pescoço doendo. – Você vai se atrasar para a reunião! – Magda me chacoalha com força – O que está fazendo? O que foi? – ela pergunta, sentando-se ao meu lado no sofá, preocupada. – O que aconteceu?

- Nada. –sorrio fraquinho, tentando entender o porquê de estar me sentindo desse jeito, e aceito de bom grado que minha irmã mexa nos meus cabelos. – Preciso de um banho – consigo forçar-me a falar.

- Okay. Vou fazer os cookies para você levar então, só espero que dê tempo de ficarem bem assados. – ela murmura em meus cabelos antes de me dar um beijo. – Dou um jeito de estarem prontos quando você for sair.

- Tudo bem. – respondo, levantando-me e subindo as escadas, enquanto Magda segue para a cozinha, cantarolando uma de suas músicas favoritas e começando a mexer nas panelas.

Tranco a porta do quarto e escorrego sobre sua superfície, finalmente sentando-me no chão. Não tenho vontade ou forças para me levantar, então fico ali, fechando os olhos de vez em quando, e encarando o cômodo nas outras. Não tomo um banho, não me movo, só fico ali, sentindo-me estranho. Sentindo-me inútil, um nada. Por que comparecer às reuniões, se eu continuo sentindo como se nunca fosse mudar? Como se fosse ficar preso em meu próprio mundo para sempre, sozinho, sem nenhum ombro no qual chorar? Como posso continuar vivendo, se tudo o que eu trago às pessoas ao meu redor é tristeza, e o medo de tudo aquilo acontecer novamente?

Cansado, fecho os olhos mais uma vez, mas não os abro novamente. Relembro o rosto dele. Da primeira pessoa a quem eu realmente amei, e a primeira que me fez perceber quem e o que eu era. Um nada.

Sinto a porta vibrar sobre minhas costas, e as batidas ficam mais insistentes, mais altas.

- Leo! – a voz de Magda surge, gritando irritada. – Você está atrasado!

Esfrego os olhos e procuro o relógio. Droga, estou mesmo atrasado! Levanto-me com esforço e troco de roupa, colocando os tênis em seguida.

Quando chego ao andar de baixo, minha mãe está na cozinha e Magda está arrumando os cookies num recipiente de plástico e me olha feio quando me vê.

- Você não tomou os seus remédios hoje. – ela me entrega os frascos, virando-se de costas e procurando a tampa do recipiente. Coloco os frascos no bolso, sem nem mesmo olhá-los. Estou me sentindo bem, não preciso dos remédios agora. Magda me entrega a tigela e sorri, subindo as escadas logo em seguida, apressada. Meu olhar a segue até a porta de seu quarto se fechar, com um baque. Logo após, a campainha toca.

- Leo, atende! – a voz de minha mãe berra na cozinha. Estou indo em direção à porta quando ela completa: - Chamei um dos seus amigos para acompanhar você até a reunião!

Paro, estático. Como assim, convidou um de meus amigos? Quem?

- Mãe? Como assim? – pergunto, ignorando a pessoa que está esperando lá fora e seguindo para a cozinha, onde encontro minha mãe mexendo nas massas de pães, a cabeça baixa, culpada. – Por quê? Quem é? – ela não responde, finge que não estou parado a alguns metros dela. – Mãe! – falo mais alto, e ela finalmente me olha.

- Ah, filho, eu estava conversando com uma moça hoje, e acontece que o filho dela também tá nas reuniões. – ela volta a olhar para baixo, evitando-me. – E aí eu falei sobre você, e a gente combinou que vocês poderiam ir juntos e...

- Por quê? – praticamente grito, e ela dá um pulo. – Por que você falou de mim para desconhecidos? Não se sai falando esse tipo de coisa por aí, é a MINHA vida...

- E você é o meu filho! – ela grita.

- E é por isso mesmo que você deveria respeitar minha vida! – também berro, irritado. Ela começa a chorar, e eu ignoro o aperto na garganta ao vê-la desse jeito. Minha mãe passou dos limites.

- É coisa privada! Essas reuniões são privadas! Não se sai falando sobre elas por aí, como se fosse qualquer coisa, qualquer fofoca ou qualquer pessoa! – eu continuo, as mãos tremendo de medo de quem possa ser a tal mulher, e o filho dela, que está do lado de fora.

- Vocês são pessoas normais, porque não falar? – ela fala, desta vez, num tom mais baixo.

- Normais? NORMAIS? Não tem nada de normal em mim! – me exalto, indignado. – Nada! Olha só para mim! – ela não olha. – Mãe, olha para MIM! – ela levanta os olhos banhados de lágrimas e me encara, chorando ainda mais. – Eu não sou normal! Isto... – tiro os frascos de remédios do bolso, chacoalhando-os no ar. – não é normal! Reuniões com pessoas que falam sobre como tentaram se matar não é normal! Seu filho não é normal, já está mais do que na hora de aceitar isso. – paro para respirar, e percebo que a campainha não está mais tocando. Ouço a voz de Magda, e imagino que ela está mandando nosso não-convidado embora.

- Eu só queria que você tivesse um amigo. Uma vida normal, assim você se esqueceria que aquilo tudo aconteceu. – a voz sussurrada de mamãe me tira de meu torpor, e, quando viro para ela, a mesma me encara angustiada, culpada.

- Eu tenho amigos, mãe. – também sussurro. – E, não importa o que aconteça, eu nunca vou esquecê-lo. É parte de mim, quer você queira ou não. Quer eu queira, ou não. Aconteceu, e nunca vai ser apagado.

- Tem? Tem amigos, Leo? – ela parece incrédula, irônica, até. – Eu não conheço seus amigos. Quais? Quais amigos você tem, Leo? Quando foi que você tirou os pés de casa e fez um amigo? – eu demoro para responder, e ela continua. – Quando foi que você ao menos falou com alguém que não fosse nas reuniões, ou a caixa do supermercado?

- O David. – minha voz sai tão baixa que eu penso que ela não me ouviu, mas ouviu.

- Quem? – sua testa se franze, em confusão.

- David. – falo, desta vez mais alto. – O David é meu amigo.

- Quem mais? – sua voz agora está trêmula, pois ela já sabe a resposta. Ninguém. Não tenho mais ninguém. Só ela, Magda e David. Não tenho amigos, não tenho colegas de faculdade ou trabalho. Meu único amigo (se é que posso considera-lo um amigo) me conheceu enquanto eu pensava em me jogar de uma ponte.

Sinto-me trêmulo, minhas pernas não mais conseguem me manter em pé, e eu desabo na cadeira mais próxima. Minhas mãos também começam a tremer, e eu começo, novamente, a sentir-me sozinho. Completamente só.

- Leo, Leo! – a voz de minha mãe soa ao longe, mas eu não consigo responde-la. Estou ocupado demais encarando meus dedos, que retorcem-se uns nos outros, e sentindo-me a maior fraude de todas. Uma completa farsa. – Leo, calma. LEO, CALMA! – minha mãe está gritando em minha face, mas eu não posso encará-la.

Magda então surge. Como eu a vi, não sei dizer, mas ela também está lá, e ambas me abraçam. Magda arranca os frascos de meus bolsos e enche um copo d'água, forçando-me a beber. Eu não tinha tomado meus remédios naquele dia porque achei que não precisava deles. Mas acontece que, sem as pílulas, eu sou confuso, sou uma bagunça. Sou quebrado, e, às vezes eu só queria jogar todas elas fora, para finalmente conseguir me quebrar inteiro. Assim, ninguém poderia me encaixar no lugar, pegar meus pedaços e colá-los com cola mais uma vez, forçando-me a viver dessa forma, mal encaixado, com as peças nos lugares errados, e eu conseguiria descansar.

Mas então eu me lembro de que não posso fazer isso. Não posso simplesmente desistir, deixar tudo para trás, minha mãe e minha irmã sozinhas, lidando com a dor mais uma vez sem o filho e o irmão para ampará-las.

Porém, e eu, como fico? Por que eu devo ser forçado a estar aqui quando não quero? Por que não posso ser egoísta, e fazer o que quero? Por que não posso fechar os olhos, e nunca mais abri-los? Por que?

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