Capítulo 6.

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Sem você, me sinto rasgado

Vinte minutos depois, David ainda me desenha, e eu começo a me sentir desconfortável. Meu braço está formigando, e dolorido por ficar na mesma posição por tanto tempo.

- Não se mexa! – David murmura sem nem mesmo olhar para mim, os olhos concentrados no desenho. Segundos depois, ele finalmente me encara, mas logo volta a rabiscar. Sentindo-me uma criança que acabou de levar uma bronca, fico imóvel, ignorando a formigação irritante no braço. Isso não é tão divertido quanto parecia, penso, olhando para o teto, entediado.

- Vai valer a pena quando eu terminar. – David fala, com um sorrisinho nos lábios. Arregalo os olhos, percebendo que falei em voz alta. Droga, Leo!

- Desculpa, é que... – começo a explicar, mas David fecha o caderno, me interrompendo.

- Vamos tirar uma pausa, que tal?

- Eu não queria... – tento novamente, mas, pela segunda vez, ele me corta.

- Leo, está tudo bem. De verdade. – David sorri, olhando-me nos olhos, o que faz com que uma descarga elétrica percorra meu corpo. – Minhas mãos estão cansadas, também preciso de uma pausa. – ele se espreguiça, e eu desvio o olhar quando sua camiseta sobe, mostrando um pedaço de sua barriga. – Posso ver o seu quarto? – ele pergunta, as mãos juntas sobre a mesa, e a cabeça inclinada para o lado, de curiosidade. Quando percebe que eu não vou responder, David cora, e imagino que também estou vermelho de vergonha.

- Esquece que eu te pedi isso, por favor. – ele ri, percebendo o que acabara de falar. – Eu não sei o que deu em mim. Esquece. – ele esconde a cabeça nas mãos.

- Esquecido. – eu falo, sorrindo com sua timidez.

- Apagado! – ele exclama.

- Completamente! – completo.

- Vamos voltar? – David pergunta, suspirando alto e pegando o caderno. Como eu não me movo, ele levanta uma sobrancelha.

- Certo. – eu falo, voltando à posição que deveria.

- Se você se comportar e NÃO se mexer – David inclina-se para a frente, tentando manter uma expressão séria no rosto, o que não consegue – Eu deixo você me ajudar a escolher meu filme favorito.

- Jura? – pergunto, já imaginando quais filmes farei David assistir.

- Juro. – ele estica o dedo menor, e o encaixa no meu quando eu faço o mesmo. – Mas nada de Magic Mike, por favor.

- Meu Deus. – eu rio, corando novamente.

- Não acredito que você já viu esse filme! – David exclama, e eu dou de ombros, achando melhor não falar nada. – E você está se mexendo, não se mexa. – David se estica na mesa e me dá um peteleco na testa. – Hora de desenhar os seus cabelos.

- Como você sabe que cor usar? – pergunto, curioso.

- Ah, eu simplesmente sei. – ele sorri, parando para apontar o lápis. – Mas as cores que uso no seu retrato são difíceis de encontrar e fazer. Seus olhos são azuis demais, é o azul mais intenso que eu já vi na vida. E se você reparar bem, - ele aponta para mim com o lápis. – Têm uns risquinhos cinzas. Não sei explicar. E o seu cabelo é de um castanho chocolate com umas partes mais escuras, outras avermelhadas. Jesus, você é uma paleta! – ele exclama, mexendo as mãos sem parar, como se não pudesse acreditar no que estava vendo. – É incrível. De quem você puxou esses olhos?

- Da minha mãe. – eu falo. – Minha irmã também os tem, mas os dela parecem ser mais claros.

- Uau. E esse cabelo, de quem veio? – David pergunta, enquanto troca de lápis mais uma vez e apaga alguma coisa com a borracha.

- Do meu pai. – deixo escapar, mas quando ele me olha, esperando que eu fale mais, finjo que não há mais nada para contar. E não há mesmo.

- Okaaaay. – ele desiste.

- E os seus? – pergunto, mas David faz cara de quem não entendeu, então completo: - Os olhos e a cor dos cabelos, de quem puxou?

- Ambas do meu pai. Sou um retrato perfeito e mais jovem dele. Se você o ver um dia, vai achar que somos a mesma pessoa. – ele fala, usando a borracha mais uma vez. – Pelo menos assim eu sei como ficarei quando envelhecer. – ri, seco. – Meu Deus, isso está difícil. – David murmura, apagando mais uma vez uma parte do desenho.

- Fui eu? Eu atrapalhei? – pergunto, inclinando-me para a frente, querendo ver como o desenho está ficando, mas David o tapa com as mãos, olhando feio para mim.

- Ei, ei, nada de espiar até ficar pronto. E não, não foi você que atrapalhou, está perfeito aí. – ele, mais uma vez, aponta o lápis. – É que o seu rosto é delicado demais, é um pouco mais difícil do que eu pensei que seria. – olha para o relógio na parede da cozinha. – E já está quase na hora da sua irmã chegar. – sigo seu olhar, percebendo que ele está certo. Nem vi a hora passar, e, agora que parei para pensar, meus braços não doem mais, e não me sinto entediado.

David volta a desenhar, e eu me perco em pensamentos. O que ele está fazendo aqui? Só me desenhando? Mas por que eu? Por que não outra pessoa, qualquer pessoa? E por que, naquele primeiro dia, ele insistiu em ficar por perto, como soube que eu estava num dia ruim, e estava prestes a fazer uma besteira? Como David sempre sabe quando aparecer? E, a melhor pergunta de todas: por que eu me sinto desse jeito quando estou com ele? Como se nada mais importasse, como se o mundo não estivesse lá fora, como se as pessoas não estivessem vivendo, nascendo, morrendo. Como se só existisse nós dois, conversando, desenhando, observando?

E por que diabos eu estou pensando nisso??? Ai meu Deus! Leo não me diga que você...

- O que foi? – a voz de David me arranca de meus pensamentos, mas eu sei que meu último pensamento acertou em cheio. Estou ferrado. Completa e totalmente ferrado. De novo não! – Algo errado? – David pergunta, uma ruga de preocupação surgindo em sua testa.

- Não... Nada. – respiro fundo, ignorando a queimação que surge de repente em minha garganta, e a vontade de vomitar. Reflito novamente por que me sinto bobo ao lado de David, e por que observo cada movimento dele como se fosse a coisa mais interessante do mundo. Sim, Leo, você está se apaixonando. Droga!

- Leo? – David pergunta, deixando o caderno de lado.

- É... É tarde. Eu tenho um... – limpo a garganta. – Compromisso. E Magda já vai chegar, então...

- Ah sim, certo. – David mexe no cabelo, puxando os fios enquanto pensa. – Podemos marcar outro dia para finalizarmos?

- Ahn, claro. – respondo, ainda me sentindo bobo.

- Ok. Bom, eu tenho o seu número, e você tem o meu. Só me deixa saber quando estiver disponível e....

- Sempre. – exclamo, cortando-o. David tenta segurar o riso. – Estou sempre dispo... Livre. É só me dizer o dia. – limpo a garganta novamente.

- Certo. Então, a gente se fala. – ele se levanta, guardando as coisas na pasta.

- Certo. – eu repito, observando-o.

- A gente se vê então. – ambos ficamos imóveis, sem saber o que fazer a seguir.

- Certo. – eu falo, mais uma vez, e estendo a mão para David, que sorri ao pegá-la.

- Certo. – ele ri, sua mão apertando a minha de leve. – Até mais, Leo.

- Até mais, David. – acompanho-o até a porta, e o vejo indo embora, acenando ao longe, como fez da outra vez também. Quando David finalmente desaparece no horizonte, fecho a porta e me jogo no sofá. Droga, Leo!

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