26 - Batfossa

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- Tá, então, vamos ver se eu entendi... – Letícia estava jogada na minha cama olhando para mim, enquanto eu estava sentada no chão apertando uma almofada contra o rosto. – Você terminou gostando de Henrique... – Ela fez uma pausa para enfatizar – O Henrique?

- Sim, O Henrique! – O som da minha voz saiu abafado.

Eu tinha que contar aquilo para ela. Terminei descobrindo que não é nada fácil passar por essa situação sem a ajuda de outros amigos. Não é legal guardar tudo isso no peito. Ressentimento, amor, tristeza, alegria quando guardados por muito tempo, explodem que nem uma granada. E eu gostava da minha pessoa por inteira e já estava começando a rachar. Não sou uma boa catadora de cacos.

- Por que diabos você não me contou isso antes? – Ela pega o meu travesseiro e me acerta. Eu tiro a almofada da minha cara para conseguir respirar e manter um pouco da minha dignidade. – E eu fiquei empurrando aquele idiota pra Clarissa! Isso faz meses, Ló! Meses!

Eu compreendia o fato de ela estar completamente zangada comigo. Eu também ficaria uma fera se algum amigo meu escondesse alguma coisa. Acho que iria me sentir menos amiga... Não sei.

- Desculpa! Eu sei que poderia ter contado. Eu queria, mas achei que isso não iria dar em nada. Que era somente uma coisa louca que estava sentindo e que tudo iria voltar ao normal. Não imaginei que um dia eu iria querer beijar aquele menino ou então imaginar como seria andar de mãos dadas... Essas coisas que dá bem muito embrulho no estômago, sabe? – Afofei a minha almofada e olhei para ela com sinceridade. – Eu só fiz me ferrar. Estou na fossa... Aquelas bem grandes que você não consegue ver o sol... Meus companheiros são os seres da escuridão.

- Tipo o Batman... – Lê fala e eu me pergunto como foi que ela veio com aquela ideia. Essas coisas estranhas saiam da minha mente.

- Sim, estou na Batfossa nesse exato momento. Sem previsão de saída.

- Nossa, que brega... – Ela começa a rir e eu termino rindo junto.

- Mas eu não fiquei totalmente sozinha. – Estava falando de Pedro. – Conheci um menino naquela sua festa que está me ajudando a não pensar tanto no assunto. Bom, ele ainda não fez nada que prestasse, mas acho que foi bom falar para alguém sobre tudo o que estava acontecendo.

- Estou me sentindo mais escantilhada ainda, Ló! Que menino é esse que sabe mais sobre você do que eu? – Ela realmente estava bastante sentida.

- Ah, não sei se você o conhece. O nome dele é Pedro e ele é amigo de Narciso. – Novamente Narciso usado como referência.

- Ahhhhh, conheço sim! Ele é o melhor amigo de Narciso. Incrível que você não o conheceu no colégio.

- Ele me disse que foi ajudar na declaração... Mas eu realmente não me lembro. Estava muito entretida em observar toda a cena.

- Imagina só! – Ela estava bastante animada. – Ele é muito gente fina. Estou feliz que tenha sido ele a te ajudar nesse momento.

- Sim... Na minha Batfossa.

- Ah, mas, vai que você encontre o seu Batman. E ele destrua todo o sentimento que você tem por Henrique, sabe? Tipo, o cavaleiro das trevas termina roubando o seu coração. – Letícia olha para o além como se visse toda a cena. Um morcego voador se transformando em um lindo cara musculoso capaz de fazer de tudo para me salvar da Fossa City.

- Eu já vejo um cenário melhor. – Eu me levanto e começo a encenar. – Não preciso de um Batman. Eu posso muito bem fazer a limpeza do meu coração e me tirar da fossa sem ter que me prender de novo a outra pessoa.

Eu já imaginava aquela cena em que todos esperam para que o herói, nesse caso a heroína, se levante depois de muito lutar. O momento da decisão em que toca aquela música – colocada ali propositalmente para fazer todo mundo se arrepiar, - os raios de sol batem em seu rosto e você sabe que o jogo irá virar, pois ela se dedicou e evoluiu para ter aquele momento de superação.

Queria ter aquele controle remoto do filme Click para pular a minha vida para esse momento. Mas o que realmente acontece é que uma grande barata voadora entra no meu quarto e nós saímos correndo em disparada aos berros. Eu pego uma vassoura e entro gritando no meu quarto para o confronto, afinal, eu tinha que lutar uma batalha de cada vez.

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