Capítulo 4.

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Sem você, eu me sinto quebrado,

como se eu fosse a metade de um todo

Antes...

-Vamos rapaz, acorde. - a primeira voz murmura, próxima ao meu ouvido, mas eu não consigo me mover, por mais que tente.

-Ai meu Deus, ai meu Deus, ai meu Deus! – uma outra voz, esta mais fina, fala alto do outro lado, soluçando.

-Pelo amor de Deus, menino, acorde! Alguém chame uma ambulância! – uma terceira pessoa fala, acredito que a voz pertença à pessoa que mantém minha cabeça fixa no chão, para que eu não tombe para os lados.

- Ai meu Deus, ai meu Deus... – a voz irritante continua a gritar.

- Cala a boca! – a primeira voz repreende, e após isso, escuto uma sirene ao longe. O som fica cada vez mais próximo, e, quando parece estar dentro da minha cabeça, tamanha a ardência dos meus ouvidos, sinto mãos apalpando meu peito e braços, além de algo duro sendo colocado em volta de meu pescoço. Alguém pergunta se estou ouvindo, mas eu não consigo me mover, quem dirá falar. Tento abrir os olhos, mas só consigo fazê-los tremer um pouco, o que a pessoa aceita como afirmação de que estou ouvindo.

A dor que sinto é incomparável com qualquer outra que eu já tenha sentido, e, mesmo que eu implore mentalmente para que todos parem de mexer em mim, de me levantar e fazer com que tudo gire, eles continuam me movendo, até que tudo simplesmente apaga. Tudo acaba. Eu não sinto mais nada, não ouço mais nada. Sinto que estou ficando mais leve, como se estivesse voando. A dor se foi, assim como a angustia e todo o resto. Eu ainda não consigo me mover, mas é como se meu corpo estivesse sendo puxado para cima, para o céu, por mãos invisíveis. Eu estou voando. Estou livre. Eu consegui!

Agora...

Saio de meus devaneios quando sinto meus pés encharcados. Olho para o chão e vejo que alaguei a cozinha. Droga, Leo! Estava lavando a louça e pensando sobre minha rotina quando fui levado ao passado, lembrando-me da primeira vez em que tentei tirar minha própria vida. Aquele fora um dos melhores e piores dias da minha vida. Melhores porque, pela primeira vez, eu me senti pleno, infinito, livre. Piores porque foi o início do pior; os remédios, os cuidados, os olhares apreensivos, o medo.

Enxugando a pia e depois o chão, tento parar de pensar no passado, coisa que sempre consegue atrapalhar meus dias. Eu não estava no meu melhor momento quando fiz aquilo, quando me joguei na frente do primeiro carro que passou por perto. Não estava completamente são, mas, daquela forma, consegui o que sempre quis: por um momento, parecia que eu estava livre da dor, e eu voei.

Assim que organizo a cozinha, coloco comida para os gatos, que, por mais estranho que pareça, não estão por perto, e subo para trocar de roupa e calçar os tênis. Aproveito e pego minha carteira, além da lista de compras que minha mãe deixou. Tranco a porta da frente e escondo as chaves debaixo do tapete. Clichê, mas se for em outro lugar, Magda se esquece e acaba presa do lado de fora.

Apalpo os bolsos em busca de meu celular, e suspiro aliviado quando o encontro. Começo a correr, evitando olhar para os lados e ter que cumprimentar algum vizinho que, com certeza, vai me olhar como se eu fosse contagioso, ou como se eu fosse me matar na frente deles. Brincadeirinha.

Chegando ao supermercado, vou direto até a seção de laticínios, empurrando o carrinho de compras e ouvindo música nos fones de ouvido. Faço contas com o lápis que encontrei no bolso do moletom ao redor da listinha, tentando descobrir qual das marcas de leite vale mais a pena levar. Quando tomo uma decisão, coloco as caixas no carrinho e, quando tento empurrá-lo, sem nem mesmo erguer a cabeça, ele não se move. Estranhando, ergo o olhar, o que faz com que os fones caiam, e vejo que alguém está tentando impedir minha passagem.

-Ora, ora, se não é o Leozinho. – a voz pertence a Marco, um garoto que, antes, era um dos meus melhores amigos, mas que, agora, só representa a dor. E é o que me atinge assim que o vejo, dor. – Não sabia que você já tinha permissão para sair do hospício. Devo chamar a polícia? – ele ri abertamente, os olhos frios e maliciosos. Olho ao redor, procurando uma rota de fuga, porém, não há ninguém por perto. Deixe tudo ai e saia, Leo, você pode voltar depois.

- O que foi? Um dos seus gatos fedidos comeu a sua língua? – seu sorriso desaparece, dando lugar a uma expressão de arrogância. – Qual é, Leo, fale comigo!

- O que você quer? – consigo perguntar baixinho, o que o faz sorrir novamente.

- Há, sabia que você ainda sabia falar.

- O que você quer? – desta vez, falo mais alto.

- Ei, ei, ei – Marco ergue as mãos como que em rendição. – Não precisa ficar estressado, estou aqui em total paz.

- Então me deixa passar. – minhas mãos estão remendo, então as fecho em punhos, os nós dos dedos brancos.

- Por quê? Não quer conversar? – Marco inclina a cabeça para o lado, o maldito sorriso crescendo cada vez mais, até que ele finalmente desaparece, deixando-o assustador. – Você não deveria estar aqui. Seu lugar é com as aberrações que fazem as mesmas merdas que você. Você não é uma pessoa normal, Leo, é uma aberração, quando vai finalmente entender isso?

Sem responde-lo, abandono o carrinho de compras e saio do estabelecimento a passos duros, os fones batendo em meu peito no ritmo de minhas passadas, e a risada de Marco ao fundo. Tento não chorar, mas quando a primeira lágrima cai, todas as outras a seguem, e tudo fica borrado. Meu celular toca, e eu respiro fundo algumas vezes antes de atender, mas não vejo quem é que está ligando.

- Alô. – minha voz sai engasgada, então repito, desta vez, mais claramente. – Alô.

- Leo? É o David. – a voz de David faz com que eu me sinta um pouco melhor. – Está tudo bem?

- Claro, tudo certo. – enxugo os olhos com as costas da mão, fungando uma vez.

- Tem certeza? – ele parece preocupado, e eu me sinto culpado por tê-lo deixado assim.

- Absoluta. O que aconteceu? – mudo de assunto.

- Ahn... Eu só queria saber se você está muito ocupado hoje. – ele diz, a voz ficando mais baixa à medida em que vai pronunciando as palavras. – É que eu tenho o dia livre, então podia te desenhar.

- Não! - exclamo.

- Não? – ele parece confuso.

- Quer dizer, não, não estou ocupado. – ignoro minha primeira voz interior, que está me lembrando as coisas que preciso fazer para hoje, e a outra voz, que me lembra o que acabou de acontecer, com Marco. Normalmente, as pessoas têm uma voz interior. Eu tenho duas.

- Ok então, posso ir até a sua casa? – ele pergunta, mais animado. Como eu demoro para responder, acrescenta: - Se não der, tudo bem, a gente pode se encontrar em outro lugar.

- Não, pode ser.... É que... – penso no calendário de consultas na sala de estar, nos remédios na bancada da cozinha e em Magda, que logo vai chegar da escola. Além das compras que ainda preciso fazer, e da reunião. E no almoço que eu ainda não tive. – Tudo bem, pode ser em casa.

- Ok então... – ele ri. – Já falei isso antes.

- Mando o endereço por mensagem? – pergunto, tímido.

- Que nada, eu sei onde você mora, lembra? – vejo-o sorrir ao dizer essas palavras, e acabo sorrindo também. – Te vejo daqui a pouco?

- Sim, é claro.

- Ok então. Até mais, Leo.

- Até mais, David. – ele ri antes de desligar o telefone, e eu me sinto arrependido no instante em que desligo o meu. O que foi que eu fiz?

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