Capítulo 06 - Mesmo em meio as manifestações?

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Entre Sem Bater

Por Andréia Kennen

Capítulo 06

Mesmo em meio as manifestações?

— O Thiago?

A expressão da Laura não foi bem a que eu esperava, a feição de curiosidade dela se desfez e eu percebi um leve tom de desdenho. Meu sorriso também se desfez.

— Sim, o Thiago — reafirmei, terminando de colocar a caixa de arquivo na prateleira de cima e descendo da escada móvel.

Trabalhar no arquivo da empresa fora o meio mais rápido que encontrei de contar à Laura sobre o Thiago e eu. Além disso, minha ansiedade causaria um buraco no meu estômago se eu esperasse até a hora do almoço.

Parei diante dela e tentei desvendar aquela nova expressão que a Laurinha fazia, parecia um misto entre preocupação e repugnância. Cruzei os braços no peito e a encarei com um olhar duro.

— O que foi?

— Nada — ela respondeu simplesmente, esquivando-se do meu olhar ao abaixar para apanhar outra caixa de arquivo.

— Nada, Laurinha? Eu conheço essa sua cara. É a mesma quando você encontra cebolas na marmita. O que tem de errado com o Thiago?

Ela largou a caixa.

— Desculpe-me, Caio. Acho que você está empolgado, mas...

— 'Mas'...? — Bati as mãos ao longo do corpo, começando a ficar impaciente. — Desembucha, pelo amor de Deus!

— Ele é esquisito. Pronto. Falei.

— Como assim?

— Ele usa roupas cafonas, barba sempre por fazer, aquele cabelo comprido horroroso e oleoso... Ah! Pelo amor de Deus, Caio! Você não está desesperado. Eu nem imaginava que o Thiago fosse gay. Afinal, achei que era uma regra da sociedade homossexual todos gays serem bonitos, malhados, bem cuidados e charmosos. Eu sempre imaginei o Thiago morando em um bairro pobre, em uma casa inacabada e trabalhando no pesado o dia inteiro para sustentar a mulher e três filhos. Você é bonito, baby. Apesar de a família ter te rejeitado, eles têm status. O que você viu no Thiago pelo amor de Deus?

Eu não consegui responder de imediato as observações tão grotescas e preconceituosas da Laurinha. Nem sequer acreditei que aquilo estava mesmo saindo da boca dela que sempre foi uma garota tão moderada. Apenas fiquei estático por um momento, encarando o rosto bem maquiado a minha frente. Eu achei que muitas pessoas na vida me decepcionariam, mas não uma garota que sempre se mostrou mente aberta como a Laura.

— Você está mesmo jugando uma pessoa pela aparência, Laurinha? — eu consegui desengasgar.

A Laura levantou o dedo como se fosse contradizer, mas seja lá o que ela tinha em mente, ela engoliu de volta, abaixou o dedo, pensou por um instante e respondeu.

— Desculpe-me, eu não deveria ter falado o que penso dessa forma. Afinal, agora vocês são namorados.

— Não. Se é o que pensa de verdade, estou feliz que tenha exposto.

— É que foi um choque para mim, Caio. Depois que vi o deslumbrante Guilherme, achei que seu interesse fosse em caras como ele.

— O Guilherme é um babaca, hipócrita e ridículo, Laura — resmunguei entre dentes. — Eu não consigo acreditar que você se esqueceu do que ele fez? Logo você que chorou rios por causa do que aconteceu.

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