Capítulo 3.

26 7 1


Então, pare o tempo aqui mesmo, à luz da lua

Porque eu não quero nunca fechar meus olhos

À noite, sinto-me melhor. Felizmente, não há efeitos colaterais da medicação, então estou disposto. Falar durante a reunião ajudou, mas é claro que eu não falei sobre a minha quase-crise suicida de ontem. Se tivesse, provavelmente estaria dopado agora. Ou internado. Nem mesmo sei qual deles é pior. Enquanto falava sobre meus sentimentos (não todos, é claro), notei que ninguém, além da enfermeira, prestava a atenção. Mas não fiquei magoado, nem de longe. Na verdade, senti um certo alívio por poder, finalmente, despejar tudo, mesmo que ninguém estivesse, de fato, ouvindo. Foi bom falar, e foi bom ouvir também.

É noite de bingo, então minha mãe saiu com as vizinhas para jogar. Quando elas chegaram, ficaram paradas na sala de estar, como que com medo de tocar nas coisas, ou até mesmo olhar para mim. A única que teve essa coragem pareceu querer chorar de pena, e torceu os lábios trêmulos quando fingi sorrir para ela. Quis fazer uma cena para assustá-las, só de raiva, mas pensei no que minha mãe iria passar, então desisti. Todas elas sabiam do acontecido. Todos sabem, mas, pelas expressões em seus rostos, sei que prefeririam não saber. Eu preferiria não saber, pois é algo que grudou em meu cérebro. É uma das lembranças que, quanto mais eu tento apagar, mais cola em minha cabeça, e às vezes eu penso que poderia fazer de tudo para tirá-las de lá de uma vez por todas. E eu já tentei fazer de tudo, mas, infelizmente (ou felizmente), não deu certo, e ainda estou aqui.

Algumas horas após elas saírem, Magda diz estar com dor de cabeça e acaba dormindo no sofá, os pés no meu colo enquanto assisto filmes na TV. Sabendo o quanto o estofado é desconfortável, carrego-a e a levo para seu quarto, que é dividido com o de mamãe. Ela resmunga algo quando a coloco na cama, com cuidado, e abraça o urso de pelúcia assim que seus dedos o tocam. Sorrio enquanto a cubro, sentindo-me o irmão mais velho pela primeira vez em muito tempo.

Acordo de supetão quando a campainha toca, anunciando que meu jantar chegou. Com a barriga roncando, levanto-me grogue, tirando as notas de dinheiro da calça, e sigo em direção à porta. Esfrego os olhos para expulsar a sonolência, e quando finalmente abro a porta, tomo um susto. É ele. É David.

- Leo! – ele exclama, surpreso. – Uau! – seus olhos percorrem meu corpo, e eu, envergonhado, cruzo os braços, tentando, em vão, tapar o pijama.

- Se eu fosse chutar, nunca diria que você gostava de foguetes. Achei que tivesse mais cara de quem gosta de carros de corrida. – ele dá um sorriso que faz minhas pernas bambearem. – Foi mal, eu não queria te deixar constrangido. Gostei do pijama.

- Obrigado. – consigo dizer, forçando um sorriso. – Eu não sabia que você trabalhava. – Por algum motivo, sinto-me estranho, traído, por não saber disso. Qual é, Leo! Ele não tem a obrigação de te contar tudo o que acontece em sua vida!

- Pois é, minha primeira noite de entregador. Aqui está. Frango, hein? – David entrega a sacola em minhas mãos, e, quando seus dedos roçam nos meus, num reflexo, me reprimo. Ele parece não perceber, ou, se percebe, decide ignorar. – É a minha favorita também. – diz enquanto lhe entrego o dinheiro.

- Pode ficar com o troco. – falo enquanto ele o estica para mim.

- Que nada, é seu. – David coloca as notas em minhas mãos e as fecha com as suas. – Guarde para me pagar um café outro dia. Ou até mesmo uma pizza, já que agora eu sei onde você mora. – ele dá uma piscada e se afasta antes que eu possa falar qualquer coisa.

Fico parado, olhando-o se afastar, subir na moto e ir embora, acenando de longe. Sentindo-me bobo por estar sorrindo, volto para dentro de casa, coloco o dinheiro na mesinha de centro e começo a comer, limpando as mãos no papel toalha que já estava por perto para tal. Joaquim surge ao meu lado, a cabeça inclinada em curiosidade.

- Nem fem. Não fou te far nafa. – resmungo enquanto mastigo, mas ele continua me encarando. – Tudo bem. – desisto, dando-lhe um pedaço generoso de massa com frango, que ele logo devora. Lambendo os lábios, o gato pula do sofá e desaparece no andar de cima. Estranho ele não ter ficado para pedir mais, porém, agradeço por isso. Estou com uma fome danada, e não gostaria de dividir minha pizza com mais ninguém. Largue mão de ser egoísta, Leo!

Sinto uma presença do lado contrário ao qual Joaquim estava, segundos atrás, e já sabendo quem é, e o que quer, entrego a fatia que estava comendo para o ar, que logo a puxa, indo embora satisfeito. Papa Léguas olha para trás uma vez antes de fugir pela janela, indo aventurar-se nas ruas a essa hora da noite.

Suspirando, mantenho meus olhos fixos no filme que está passando na TV, e, enquanto mastigo mais um pedaço de pizza, sinto-me triste ao ver que um dos personagens não teve um final feliz.

Acordei cansado no dia seguinte. Tive insônia durante a noite, e acabei passando a madrugada vendo filmes na TV enquanto assaltava a geladeira. Algumas pessoas sentem fome demais quando tomam antidepressivos, outras, não sentem, e acabam ficando sem comer nada o dia todo. Eu sou o meio termo. Alguns dias são de comilança, outros são de vazio total. Somente às três da manhã parei de comer, escovei os dentes e fui para a cama, tentar dormir. Fechei os olhos por alguns instantes e me lembrei de David, por motivos que eu ainda não sei. Gostei de conhece-lo, gostei de seu senso de humor. Hoje, quase ninguém fala daquele jeito comigo, as pessoas têm medo de que eu surte, comece a chorar ou tente me matar se fizerem piada das roupas que uso ou coisa do tipo. Mas David não.

É claro que ele nem sabe o que acontece comigo, no dia em que nos conhecemos, falei muito pouco sobre mim, e o deixei falar sobre si e seu trabalho durante quase toda a conversa, não me importando nem um pouco de ouvi-lo tagarelando. Gosto do som da sua voz, e gosto de ver sua boca se levantando nos cantos quando ele quer sorrir, mas se contem. Meu Deus, o que está acontecendo comigo?

Abrindo as cortinas, percebo que deve ser perto do meio-dia, pois o sol está brilhante e faz meus olhos arderem. A casa está silenciosa, então imagino que Magda já foi para a escola, e minha mãe para o trabalho.

No início, elas evitavam deixar-me sozinho, pois tinham medo de que eu fosse tentar algo. Depois do acontecido, nem mesmo eu confiava em mim. Meus impulsos eram mais fortes e a medicação recém-adquirida fazia com que eu me sentisse estranho. Hoje, dois meses depois, eu ainda a sinto; aquela sensação de angustia, aquela impotência, a tristeza que me faz acreditar que qualquer coisa é melhor do que isso, a vida que eu levo agora. Sem estudo, sem trabalho, só reuniões, consultas e corridas matutinas. Só quando você se sentir pronto, disseram-me os médicos, minha mãe, todo mundo. Não adianta forçar-se a fazer algo que não quer, ou algo que não está preparado para fazer. E eu ainda não me sinto preparado, e tenho medo de que nunca esteja,

Abro a porta do quarto silenciosamente, e, quando vejo que os gatos não estão por perto, saio rapidamente e a tranco. Assim que o faço, uma cabeça peluda e cinzenta surge no corredor. Vendo que não será hoje que finalmente entrará no meu quarto, Joaquim mia em revolta e desce as escadas, em busca de comida, acredito eu.

O sigo e vou em direção à cozinha, onde encontro um bilhete de mamãe pedindo para que eu lave as roupas sujas e faça compras, pois ela tem uma encomenda grande para amanhã. Enquanto preparo meu café-da-manhã, ligo o radinho na sala, torcendo para que a música faça eu me sentir mais disposto, mais animado. Mesmo cansado, consigo comer enquanto batuco os dedos na mesa, no ritmo da música.

Mexendo meu leite com achocolatado, estico a mãe sobre a mesa e pego meu celular, abandonado ali por mim na noite anterior. Vejo que recebi novas mensagens. Duas são de Maria, a moça do consultório, confirmando minha consulta e pedindo para que eu confirme presença na reunião de hoje. Reuniões diárias, essa é a minha vida.

Suspirando, começo a lavar os talheres e o copo que sujei, enquanto passo minhas tarefas do dia. Correr, ainda não fui correr. Compras, a lista deve estar debaixo do vaso de flores na sala. Lavar as roupas, de preferência, antes de Magda chegar da escola. Reunião à tarde, levar biscoitos para a confraternização (uma vez por mês). É isso. Essa é minha rotina. Melhor começar logo.

Quando você me encontrouRead this story for FREE!