Capítulo 2.

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Com você, eu me sinto vivo, como se todas as peças perdidas do meu coração finalmente se unissem.

O dia seguinte amanhece chuvoso, feio, cinza. E é assim que eu me sinto. Não consegui dormir muito durante a noite, tomei minha dose ontem à noite e tive insônia, um dos efeitos colaterais. Pelo menos, desta vez, não foram os tremores. Acordo cedo, e, como não consigo mesmo dormir, decido me levantar logo. Assim que abro a porta do quarto, Joaquim tenta entrar, espremendo-se na fresta entre a porta e a parede. O empurro com o pé e tranco o quarto com um baque. O gato me olha feio e sai rebolando, descendo as escadas e saindo da casa.

Respiro fundo e sigo até o banheiro, onde escovo os dentes, faço o que preciso fazer e então estou de volta ao quarto. Deito de costas na cama, encaro o teto e penso. Quem era aquele rapaz, David? Por que ele insistiu em falar comigo, em perguntar se eu estava bem, e por que eu aceitei encontra-lo para que ele me desenhasse? E, por que diabos estou pensando nele?

Levanto-me de supetão e fico imóvel quando a tontura me atinge, deixo-me cair na cama novamente e fico assim por alguns segundos. Levanto-me mais uma vez, devagar, troco de roupa, calço os tênis e saio para correr. Correr para mim é algo terapêutico, mas não o faço sempre. Alguns dias são melhores que os outros, e, pelo jeito, este será um dia bom.

Parando para descansar, tiro o celular do bolso e mando uma mensagem para Magda, avisando onde estou. Não quero que o episódio de ontem se repita. Assim que clico em enviar, meu celular apita com o recebimento de outra mensagem. Acreditando ser de Magda, a abro imediatamente, mas é de um número desconhecido. Ainda assim, sei muito bem quem a enviou.

Bom dia, moço. No Plaza Burguer, às 9h? E leve o seu sorriso, por favor.

D.

Sorrindo como um bobo, guardo o aparelho no bolso e volto para casa, correndo o mais rápido que posso, tentando imaginar o que diabos está acontecendo comigo.

Assim que passo pela porta, sinto o cheiro de café no ar. Sigo até a cozinha e encontro minha mãe fritando pão, os cabelos presos num coque e os pés batendo no chão no ritmo da música. Ela para quando me vê, e, sorrindo, pergunta:

- Tudo bem? – tentando não demonstrar o quanto odeio essas duas palavras, afirmo com a cabeça, e ela sorri ainda mais. – Ainda bem. Sabia que a mudança no medicamento ia te fazer melhor, meu filho. A Maria já ligou para confirmar o encontro de hoje? – faço que não, mas, na verdade, não sei se ela ligou. Não me lembro de ter atendido telefonema algum, muito menos de ter recebido mensagem. – Poxa, dá uma ligada lá depois, vai que ela esqueceu de avisar, né?

- É. – respondo, aceitando o prato que ela me estende, e forçando um sorriso.

- O que foi? – ela pergunta. – Você está estranho. Está mais coradinho. – aperta minhas bochechas e eu reclamo, o que a faz sorrir. – Aiaiai, Leo.

- O que, mãe? Eu não fiz nada! – protesto, mas ela me ignora.

- Já estava mais do que na hora.

- Na hora de quê? – Magda aparece, o cenho franzido de curiosidade.

- Do seu irmão acordar para a vida. – minha mãe me dá um beijo no topo da cabeça e leva seu prato para a sala, onde liga a televisão e senta no sofá.

- Do que ela está falando? – Magda me interroga, preocupada.

- De nada. Deixa para lá. – sorrio fracamente para ela e começo a comer, olhando o relógio de tempos em tempos. Nove horas parece tão longe.

Assim que ouço o barulho da campainha, levanto a cabeça. Não é ele. Bufando, volto a ler meu livro, mas não sem dar uma olhada no relógio. Um minuto desde a última vez em que olhei, e nada de David. Pare de ser paranoico, Leo!

- Ei, moço. - quando escuto sua voz, meu coração dá um pulo. Levanto o olhar e lá está ele, sorrindo como sempre, e vindo em minha direção. Em seu ombro esquerdo está pendurada uma maleta marrom, e na mão ele leva um caderno de desenho. – Desculpa a demora, dei uma atrasada. – ele me cumprimenta com um aperto de mão. O que foi, Leo, achou que ia receber o que, um abraço?

- Sem problemas, não faz muito tempo que estou aqui. – tento mentir, mas nunca fui bom com mentiras, então sei que ele percebeu. – Vai tomar alguma coisa? – mudo de assunto.

- Um café. – ele se levanta abruptamente e se dirige até o balcão, onde faz seu pedido, e, quando aponta para mim, sei que ele está pedindo outro suco, tendo em vista que o meu já acabou. Quando finalmente volta, David toma seu café num gole só, e, respirando fundo, tira o estojo da maleta, organizando todos os instrumentos que vai precisar. Ele olha para mim de tempos em tempos, e eu fico cada vez mais nervoso. Por que está nervoso? Ele só vai te desenhar!

- Não está nervoso, está? – com medo de que David tenha algum poder paranormal e possa ler meus pensamentos, tento parar de pensar. Mas aí penso ainda mais, e tenho certeza de que estou olhando para ele assustado, pois David ri e arruma a postura. – Não estou lendo seus pensamentos, se é isso que está pensando. – ele levanta a sobrancelha, um sorriso malicioso nos lábios.

- Isso foi um pouco assustador. – murmuro, o que o faz sorrir mais abertamente. – Você é o que, um tipo de vidente ou mago que lê pensamentos?

- Que nada. Sou só um artista que gosta de desenhar coisas bonitas e de fazer as pessoas sorrirem. – não contenho o sorriso que me escapa dos lábios, e vendo que conseguiu o que queria, David bate palmas uma vez. – Viu? Eu sou bom nisso. – É. Você com certeza é.

David disse que precisaria de mais uma sessão (foi como ele chamou) para finalizar meu retrato, precisamos parar porque ele tinha aula, e eu, reunião. Mas é claro que eu não contei isso à ele, não sei por que, mas não contei. Não parecia certo. Sendo assim, ele salvou o número de seu celular no meu, disse até mais e foi embora. Nada de aperto de mãos desta vez.

Horas mais tarde, encontro-me na mesma sala em que estive na semana passada. Branca, sem graça, e com pessoas como eu. Não exatamente como eu, mas pessoas diferentes, por assim dizer. Pessoas que também precisam de remédios e de ajuda para melhorar.

- E então, quem quer ser o primeiro? Bob, pode ser você? – a enfermeira pergunta gentilmente ao homem barbudo e alto do outro lado do círculo. Ela sabe que ele não vai falar nada, Bob nunca fala, mas sempre pergunta, na esperança de que Bob diga como foi a sua semana, como está se sentindo e etc.

- E que tal você, Olhos? – Olhos é o apelido de uma garota de óculos que não aceita ser chamada de outra coisa. Ela sofre de transtorno obsessivo-compulsivo, e, pelo o que eu sei e ouvi dizer, está aqui há mais tempo do que todos os outros.

- Não, obrigada. – ela recusa, falando alto, como sempre faz. A enfermeira suspira, olhando ao redor, escolhendo sua próxima vítima. Ela me vê.

- Leo! – exclama, olhando-me esperançosa. Assim como Bob, eu nunca abri a boca, nunca quis falar o que sentia, o que se passava em minha vida ou o que havia feito desde o incidente, há dois meses. Mas eu quero acabar logo com isso, sinto-me na obrigação de ficar melhor logo, de voltar a ser quem eu era antes de tudo, e de ficar bem.

- Olá, meu nome é Leo.

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