06 - Parabéns - Parte 3

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– Eu sei que do mundo de onde vocês vêm, está cada vez mais comum não acreditar em algo maior do que nós. Mas, isso aqui não saiu de moda – Lura diz e dá uma risadinha amenizadora. – E nós cremos nas Águas que desfizeram a maior parte do norte maligno, fazendo sobrar dele somente uma cidadela sob uma redoma e algumas confederações miseráveis. Não olhem para mim como olham para alguém cruel. Eles realmente mereceram. Diferente do sul.
Olívia luta para não deixar um muxoxo aparecer em seu rosto. Ela pergunta para entender melhor:
– Então... Os deuses do sul se vingaram e desertificaram o norte? Por quê?
– O norte sempre foi ganancioso e buscou os mais nefastos avanços tecnológicos. A sua sociedade decaiu e passou a consumir cada vez mais a natureza e a força de trabalho dos pobres. Eles foram presenteados por forças obscuras com sabedoria maligna. Alguns deles se sentiam divindades e podiam ler mentes, invadi-las, controlá-las e fazer outras coisas inomináveis – Lura afugenta pensamentos aparentemente desagradáveis. – Já o sul sempre acreditou no que não podia se ver e respeitou a natureza e a relação entre os seus povos: as sete grandes famílias. Elas que habitavam em volta do monte Alur, que significa "a luz em forma sólida"– Lura explica expondo com as mãos o desenho espiral nas placas de madeira coladas nas paredes de terra.
– E por que "habitavam"? – Alice questiona curiosa. Ao ouvir essa pergunta, Lura tem um pesar no semblante.
– Bem... Olhe aqui neste mapa – Lura indica. – Este é o continente sul e devido a uma guerra contra o norte, que se uniu numa confederação, ele foi praticamente todo extinto. – Lura para de observar o mapa e se volta para elas. – Todas as famílias... As sete tribos... Não existem mais.
O silêncio da descoberta de uma nova tristeza acomete as cinco. Agora que elas começavam a se sentir parte de algo maior, esse algo maior não existia mais.
– Só existem os remanescentes... – Lura faz uma pausa quase que dramática e faz um encontro visual com as suas ajudantes e depois se volta para as cinco. – Os quais são vocês, seus pais, seus irmãos... E de certa maneira, os seus filhos.
A jovem líder dirige o olhar para Sonia que mascara que lembrar da própria lhe fora um toque dolorido com uma rigidez indiferente externa. As outras pensam nas pessoas queridas que agora parecem estar tão distantes. Um buraco passa a ser cavado dentro de seus peitos. A vida normal, às vezes ruim, só que normal não lhes é mais disponível. A ansiedade cresce em angústias em suas entranhas.
– Então... – Olívia começa mas, não termina. Esse é o seu espanto entorpecendo o seu pensamento para que ela não consiga formular frase alguma a ser dita.
– Os nossos familiares são tipo aliens também? – Micaela questiona quase que inocente. Anne solta uma risadinha, e as outras quatro olham pra ela, de forma, ainda, um tanto hostil.
– Sim, Micaela. Mas, vocês... Ainda não a perdoaram? – Lura faz essa indagação e todas reagem como se não tivessem entendido o que ela tinha perguntado.
– Eu vi, gente. Eu vi a forma que vocês olharam para Anne... Não foi fácil pra ela. Foi algo que ela sentiu ser necessário. Não queríamos que ela matasse pessoa alguma... Mas, pelo que sabemos, foi a forma de salvar a todas vocês. Tratem-na bem. Vejam que ela as trouxe para um lugar bom. E, acima de tudo, ela é uma de vocês – Lura termina com uma autoridade pacífica. Alice lhe pergunta em busca da resposta de um fato que todas estranharam:
– Pera aí. E o que aconteceu com a Anne quando ela tocou os computadores lá? Não foram vocês que fizeram o download lá? Que entraram na cabeça dela e mandaram ela matar Dulan?
  Anne começa a transparecer certo incômodo. Será que ela não tinha confiado demais no que se passa dentro de sua cabeça?
– Espere. Do que vocês estão falando? – Lura se preocupa, mas ainda com a mesma fala mansa de sempre.
Alice conta sobre o download que Anne sofrera nas interfaces. Lura diz que eles não têm nada a ver com isso.
O clima fica esquisito. Ela achava que eles, os Destruidores, estavam no controle. Ela troca olhares desconfiados com as suas auxiliares.

SETE - Volume I [COMPLETO]Where stories live. Discover now