Capítulo 1.

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Você e eu, nós somos como fogos de artificio explodindo no céu.


Saindo do consultório a passos largos, rasgo a receita médica e a jogo no latão de lixo mais próximo. Fiz isso da última vez também. E da penúltima. Sorrio forçadamente para a recepcionista, que me dá um tchauzinho com a mão, enquanto fala no telefone, e sigo até a saída, respirando o ar puro quando finalmente piso na calçada. Aqui fora, ninguém me conhece, talvez ninguém nunca tenha me visto antes. Sou apenas mais um garoto comum, jeans rasgado, moletom preto e tênis surrado. Aqui fora, ninguém pode me julgar pelo o que há na minha cabeça, mas eu me sinto julgado ainda assim.

Enquanto caminho de volta para casa, relutando o máximo em apressar-me, sabendo que tenho hora para voltar, imagino o que aconteceria se eu não voltasse. Papa-Léguas não sentiria minha falta, tudo o que ele quer de mim é o que sobra do almoço, e Joaquim ficaria feliz em poder, finalmente, dormir na minha cama, coisa que eu nunca o deixo fazer, já que sou alérgico a pelo de gatos. Magda talvez sentisse minha falta, mas ela superaria, assim como superou a perda de papai e Emanuel. E mamãe... Bom, ela teria em quem se apoiar, ela é forte. De restante, ninguém mais importa.

Eu poderia fazer isso, simplesmente acabar com tudo, com os gastos médicos, as preocupações e todo o resto. Seria um ser humano a menos engolindo o oxigênio, daria menos trabalho às árvores e seria apenas mais um buraco cavado no chão. Em cinco anos, talvez não fosse mais lembrado. Qual seria a sensação? De sumir, eu digo, não de estar debaixo da terra. Imagino que seja melhor. Melhor do que todo o resto.

- Ei, está tudo bem? – uma voz grave desperta-me de meus devaneios suicidas. Somente naquele instante, eu percebi onde estava. Na rua, parado no meio da calçada, atrapalhando a passagem dos pedestres e olhando para o céu, como que pedindo por algo. Com os olhos lacrimejando, limpei a garganta e finalmente olhei para o lado. Um rapaz de cabelos escuros, pele branca e uma ruga de preocupação na testa me encarava.

-Ahn, sim. – vendo que ele não acreditou em mim por conta da minha voz chorosa, repeti. – Sim, está tudo bem. – tentei forçar um sorriso, mas tudo o que saiu foi uma careta.

- Tem certeza? – ele pergunta, a sobrancelha direita erguendo-se suavemente.

Me sentindo encurralado, dei alguns passos para trás, esbarrando numa mulher que estava passando, e, envergonhado pelo palavrão proferido por ela, olhei para o chão antes de encarar o rapaz novamente.

- Claro, tudo certo. – soltei um riso seco, andando para trás novamente e pegando o caminho de casa.

Sinto uma mão puxando-me levemente pelo braço, e, olhando para trás, o vi novamente. Achei que ele já tivesse desistido. Era o que eu queria que ele fizesse.

- Quer beber algo? Conheço um bar aqui perto que é muito bom. – ele sorri, os dentes brilhantes e um pouco tortos na parte superior.

- Ahn, melhor não. – falei baixinho, e percebi seus ombros caindo, como que de desapontamento. Senti-me mal no mesmo instante. – Eu não bebo. – reformulei.

- Não precisamos beber, que tal um sorvete? – o sorriso voltou, e, naquele instante, eu soube que estava perdido. Não sei se foram os remédios, mas, naquele instante, eu estava muito ansioso.

O nome dele era David, e estava no terceiro ano da faculdade de artes plásticas. Sonhava em visitar a Europa e fazer uma série de quadros sobre o continente, além de continuar o portfólio que já estava fazendo: retratos de pessoas.

- Que tipo de pessoas? – perguntei, bebericando meu milk-shake.

- Todo mundo. – vendo minha expressão de surpresa, ele completa – Qualquer um. Pobre, rico, negro, branco, criança, adulto. Qualquer um que permita. – ele abre a boca para continuar falando, mas para.

- Pode continuar. – digo sorrindo, sabendo que ele está louco para falar mais sobre seu trabalho.

- Pode parecer muito clichê, mas eu gosto de retratar a beleza, sabe? E, diferente do que muitos podem pensar, eu sei que ela está no rosto das pessoas, nos olhos, no sorriso, num arrumar de cabelo. – ele aponta para o gesto que eu estava prestes a fazer, mas abaixo a mão no mesmo instante. – Eu sei que não vou fazer muita diferença para o mundo, sei que não vou conseguir a paz mundial ou salvar a vida de alguém. – Já salvou, eu penso. - Mas posso pelo menos fazer um retrato, certo? – ele ri, envergonhado.

- Certo. – respondo, tentando esconder o sorriso.

- Ei, que tal eu fazer um seu? – ele parece animado, os olhos brilham de excitação, e, por um segundo, eu penso em recusar. Mas que mal faria?

Somente quando chego em casa é que percebo que perdi a hora. Deveria ter pelo menos avisado que iria me atrasar. Encontro minha mãe no sofá, imóvel, o telefone na mão e os olhos fixos na parede encardida da sala de estar.

- Meu Deus! – ela praticamente grita quando me vê entrar, e corre para me abraçar. Sinto-me culpado no mesmo instante, deveria tê-la avisado! – Meu Deus! – ela repete, chorosa, as lágrimas correndo pelo rosto e os lábios tremendo. – Você demorou, pensei que... – minha mãe volta a chorar, desta vez, alto, e Magda aparece com Papa Léguas no colo.

- Ainda bem que você chegou. – ela também parece estar preocupada. Larga o gato no sofá e se aproxima, querendo me abraçar. Por um minuto, eu não me movo. Meus braços continuam parados, retos, ao lado do corpo, e minha irmã nota.

- Mãe, por que não vai terminar a janta? – ela pergunta suavemente, e minha mãe sorri, me tasca um beijo na bochecha e vai para a cozinha, sendo seguida pelo gato. – O que aconteceu? – minha irmã me puxa para o sofá. – E não se faça de desentendido, você demorou, achamos que... – ela para de falar e engole em seco.

- Eu estou aqui agora. – sussurro, encarando o chão.

- Eu sei, mas achamos que não estivesse. – ela engasga, e eu sinto a garganta queimar. Como pude pensar em deixa-la? Como pude sequer pensar que ela ficaria melhor sem mim, que ela estava melhor sem eles? Como?

Magda me puxa para seus braços novamente, e, desta vez, eu a abraço de volta. Ficamos assim por alguns segundos, até minha mãe gritar da cozinha, chamando-nos para comer.

- Me promete uma coisa? – Magda sussurra no meu pescoço. Antes que eu possa dizer qualquer coisa, ela continua: - Me promete que, quando as coisas ficarem ruins novamente, vai falar com alguém? – me afasto e a encaro, seus olhos estão brilhantes, o nariz vermelho e os lábios trêmulos. – Não precisa nem ser comigo – minha irmã engasga, a voz falhando. – Pode ser qualquer um, mas só fale, ok? Não guarde tudo para si mesmo. Me promete?

Fico calado por alguns instantes, pensando no que aconteceu na última vez. Sei que não deveria pensar, todo mundo disse que não era bom ficar relembrando, mas às vezes eu simplesmente não consigo evitar. Decido que devo pelo menos tentar.

- Eu prometo. – sussurro para minha irmã, que sorri abertamente e me abraça forte, respirando fundo. Então nos levantamos e seguimos para a cozinha, onde minha mãe cantarola.

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