Capítulo 23: O salvador

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O silêncio imperou na vastidão do salão com paredes longínquas e pilares que subiam para o infinito, enquanto os olhos desconfiados dos oito encapuzados pairaram sobre Érico. Ele percebeu naquele momento ter uma missão diferente pela frente: dialogar com os mortos.

— O que eu queria dizer é que... bem... eu preciso conhecê-los. Preciso confiar em vocês, entendem? – disse Érico, enquanto se aproximava deles com cautela. — Somos estranhos uns para os outros.

— Nos conhecer? O garoto quer nos conhecer. Ah, que audácia. – a voz grossa da quarta Absoluta, a Nobas Víbora, ergueu-se em tom indignado. – Tu não pensou por um momento que somos nós que precisamos confiar em ti?

— O que você quer dizer? – revidou Érico, na tentativa de sustentar o diálogo.

— Pense, pirralho. Nunca se perguntou por que não está sentado conosco no teu trono? – Víbora voltou a questionar, sentada sobre armas de ferro, ossos e aço.

— Eu não senti que deveria me sentar, ainda – respondeu ele, pensando sobre o assunto. Nunca havia lhe passado pela cabeça que tinha que sentar-se com eles. Achava que os tronos estavam reservados àqueles que já tinham reinado.

— Exatamente. Tu não faz parte ainda do nosso círculo. É um estranho neste recinto. Sugiro que tu comece a integrar-se – Víbora completou a constatação.

— Ou talvez você mesmo não queira se integrar, afinal. Acha que não sabemos o que está tentando fazer, humano? – a terceira Absoluta, a Lestáris Malascar, complementou. Debaixo de seu capuz, havia uma pele acinzentada como a de Papiros e o rosto triangular também se assemelhava ao dele. Os três dedos da mão seguravam os braços de um trono de formas incompreensíveis, que pareciam ter saltado de uma imaginação caótica.

— Eu... – tentou argumentar Érico, mas não encontrou palavras.

— Sim, nós sabemos. Você, humano infeliz, quer mudar seu Destino. Uma blasfêmia. Sabe quantos dariam a vida para estarem no seu lugar e carregarem a alcunha de Horror dos Céus? – perguntou Malascar, com uma voz quase cantada, suave como uma brisa matinal.

— Ah, pois abro mão dessa honra, eu quero apenas viver uma vidinha comum – Érico respondeu, hesitante com as consequências que aquilo poderiam acarretar.

Um novo silêncio tomou o salão. Os olhos dos Absolutos eram de diferentes aspectos, mas todos pareciam concordar com uma coisa: Érico era como uma nota musical destoante da orquestra de nove instrumentos. Uma desarmonia que deixava a Sinfonia da Destruição desafinada.

— Devíamos eliminar garoto e esperar o próximo que honre o acento. Nunca confiei em humanos – Anaximandis, primeiro dos Absolutos da raça dos Ánimas, rugiu com sua voz de trovoada.

— Viram? Como podemos nos entender assim? Eu nunca irei me sentar nesse trono enquanto não souber o que esperar de todos vocês – Érico apontou para eles de forma acusatória.

— Tivesses deixado que a Tharina explodisse o crânio do rapazote, Avankhar, e não teríamos que encarar tamanha rebeldia – comentou Athalamandus, a sexta Absoluta, da raça dos Valfar. Aquela era a primeira vez que Érico via um Valfar, povo imaterial composto apenas de elementos. A Absoluta tinha uma pele em combustão, pareciam chamas, mas ao mesmo tempo eram nuvens, neve, água e furacões, como uma miscelânea elemental por debaixo de um capuz. Seu trono era de luz, mas emitia contornos sombrios quase vivos fluindo para todos os lados.

— Estou começando a crer que eu mesmo deveria me encarregar disso – concordou Avankhar, com a mão sob o queixo escuro.

— Eu acho que vocês precisam de mim tanto quanto eu preciso de vocês. E pelo que eu entendi, não é possível deixar de ser um Absoluto. Então, eu só posso escolher os rumos do meu Destino, e não quero ser culpado por fazer boas escolhas – justificou-se Érico.

— Mas menino, não fizemos más escolhas. Fizemos as escolhas que tínhamos que fazer quando o peso da responsabilidade de ser um Absoluto caiu sobre nossos ombros. – o sábio segundo Absoluto, Badrak da raça dos Aurelos, sibilou com sua voz suave como pluma. — Peso este que, pelo que entendi, você quer se livrar, ainda que não saiba como, e esteja vagando perdido.

— Eu bem que gostaria de me livrar disso tudo, mesmo. Mas eu sou um Absoluto. Não vou jogar pessoas em fornalhas para serem devoradas por Tiranos gigantes, ou criar uma ditadura contra meu próprio povo... pois isso não é ser um Absoluto. É ser um monstro. Eu não conheço a história de muitos de vocês, mas do Avankhar e da Malascar eu conheço, e eu espero sinceramente que os outros não tenham sido cruéis como ele foi.

Após pronunciar as palavras, Érico engoliu seco. Será que os Absolutos poderiam matá-lo ali?

— Cuidado com as palavras, moleque. Ou esqueço que é nosso sucessor e o sufoco em cima do seu próprio trono – cuspiu Avankhar.

— Você nos conhecerá, menino. Todos nos conhecemos uns aos outros durante nossas vidas. As vidas passadas, os poderes passados, as alcunhas que a história nos dá sempre ensina os sucessores a serem melhores e maiores que os antecessores. Você, mais do que todos nós, é apto a completar nossa jornada em busca do grandioso Oríginem. – Badrak continuou falando com sua voz doce. Sua pele brilhava como uma manhã ensolarada.

— Por que vocês querem encontrar o Oríginem? – questionou Érico.

— Todos buscamos essa resposta, menino. O Oríginem significou uma coisa para cada um de nós, e caberá a você descobrir o que ele significa em sua vida, também. – respondeu Badrak, sentado sobre sua pilha infinita de livros.

— Mas ele não me significa nada. Então, não tem por que eu ir atrás dele – o rapaz tentou esquivar-se.

— Tua vida não é só tua, pirralho – exaltou-se Víbora, manifestando a aparente impaciência de todos os oito. — Tu tem nas costas oito heranças históricas para pesar-te os ombros. Oito Destinos marcados em tua pele, e não um.

— Além disso, você deveria tomar providências quanto a coisas mais importantes nesse momento – completou Avankhar, buscando nos olhares dos outros a aprovação. Recebeu deles os olhares de confirmação para que continuasse. — A ameaça iminente já caminha no Universo.

— Do que você está falando? – perguntou Érico.

— Aquele que provoca a queda de um Absoluto sempre que ele está no auge. Dessa vez ele chegou junto a você. Talvez indique que possa derrotá-lo logo – a voz do quinto finalmente se manifestou. Thudoroxx era um Parábolos, e esse povo não tinha forma concreta. Eram invisíveis aos olhos, vindos dos confins do Universo. Debaixo de seu capuz não havia nada, e sua voz era um coral de mil vozes, algo que arrepiava Érico desde a primeira vez que ele ouvira.

— Ou, em contra partida, indique que a tua queda será a mais rápida por consequência da tua estupidez – Víbora não perdeu a chance de atacá-lo.

— Do que raios vocês estão falando? – explodiu Érico.

— Sempre que um Absoluto se ergue e trás consigo o caos para o Universo, surge junto um herói que trará sua derrota – Badrak explicou com serenidade. — O Finalizador da Dança. O Restaurador da Luz. O Abençoado. O Iluminado. Ele é chamado de Antares!

— Nenhum Absoluto sobreviveu à sua contra parte. Nenhum de nós venceu seu arqui-inimigo... – completou Avankhar com a voz dura.

— Antares? Um inimigo que mata Absolutos? Ele vai me matar? – gelou Érico, como se o inimigo estivesse presente.

— A menos que o encontre e o destrua antes – respondeu Avankhar com um semblante sinistro. — Nós não tivemos sucesso, mas você pode ter, se mudar o seu foco das coisas desnecessárias e começar a buscar seu inimigo! Quando olhar nos olhos do Antares, você saberá que está diante dele. Todos nós soubemos...

— Mas não precisa ser assim. Eu estou tentando mudar o meu Destino. Esse tal Antares também pode não aceitar as coisas como elas são e também pode tentar mudar esse Destino de me matar – tentou barganhar Érico.

— Tua tolice o extinguirá tão rápido, pobre Horror dos Céus. Se tu não mudar agora mesmo de posicionamento, será o mais breve entre nós... – disse Víbora, e todos concordaram com suas cabeças.

O mais breve entre nós...

As palavras ecoaram na mente de Érico enquanto ele acordava de seu sono forçado. Quando deu por si, notou que os braços não se moviam. Ele estava preso a uma cadeira com cordas apertadas e um lenço cobria sua boca. Era um prisioneiro.

Absolutos I - A Sinfonia da DestruiçãoOnde as histórias ganham vida. Descobre agora