Capítulo 22: Céu em chamas

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Poucas pessoas haviam visto a forma da Solitária, enterrada por Avankhar nas profundezas de Sândalo para devorar os prisioneiros que desobedecessem ao Absoluto. Naquele momento, quando a enorme porção de terra jorrou da montanha de Sândalo como um vulcão em erupção, todos os habitantes de Balthasar puderam vê-la. A criatura era extensa, uma gigantesca estrutura serpenteante com oitenta metros de circunferência e de extensão incalculável. Parte de seu corpo continuava debaixo da terra enquanto ela rastejava para fora.

A cabeça da Solitária era espinhosa, dentro da qual escancarava-se uma bocarra enfestada de dentes. Atrás da primeira boca, outras nove se abriam, cada uma com sua fiada de dentes pontudos. O corpo da criatura estava coberto por couraças grossas de magma endurecido devido à sua vida dentro do poço de lava e vapores emergiam de seus poros colossais. Um grito animalesco emitido pela criatura tomou o céu de Balthasar, arrebentando todos os vidros das proximidades, enquanto as pessoas começaram a correr desesperadas.

— Era só o que faltava – disse Darwin, enquanto a criatura interminável emergia do solo. — O que pode ter despertado essa coisa?

Érico fitou a criatura com borboletas no estômago. Ela parecia familiar. Por alguma razão, ele se lembrava daquela presença. Lembrou-se de abrir um portal no espaço em busca de um Tirano, mas na pele do oitavo Absoluto. Os Tiranos eram criaturas de imensurável tamanho e poder que navegavam pelo Universo devorando mundos, destruindo vidas ou simplesmente atacando uns aos outros. Algumas lendas diziam que eram a manifestação da fúria dos Pré-Estelares, outras diziam apenas que eram animais que evoluíram mais do que os outros e ascenderam para o Universo. Algumas teorias contavam que elas podiam ter se perdido entre dimensões. O fato é que eram gigantescos, perigosos e definitivamente seu lugar não era dentro de um planeta.

A ideia de que talvez sua presença tivesse despertado a Solitária deixou Érico angustiado.

— Eu tenho que derrotar essa coisa! – declarou ele, como se quisesse assumir a culpa pela presença da criatura.

Camilo voltou-se para ele com olhos desconfiados. Papiros o fitou com seu sorriso sem dentes e Jeane como se ele fosse um lunático. Darwin foi a única que manifestou apoio.

— Eu topo!

— Não, não, vocês piraram, né? Uma coisa é enfrentar estes caras, outra bem diferente é aquela criatura – Jeane apontou a mão para o horizonte.

— Eu não sei bem por que, mas eu sinto que preciso fazer isso – confessou Érico. — Darwin, você vai me ajudar mesmo depois... daquilo?

— Relaxa, Érico. Falei com sua amiga selvagem feiosa ali. Ela me contou umas coisas sobre você. Eu acho que me equivoquei com aquela reação e... bom, quer minha ajuda ou não, bonitinho?

— Quero, e preciso – sorriu Érico. — Você consegue abrir um portal e jogar essa coisa para longe daqui?

— Não, né. Metade dele ainda tá debaixo da terra. E não é tão simples assim. Mandar seres vivos gigantes por portais não é como mandar objetos e construções. Os portais exigem muito mais energia. Eu correria o maior risco de vida, algo que não estou disposta a fazer.

— Então, o único jeito é o ataque direto – concluiu o rapaz. — Preciso da ajuda de todo mundo! Mas eu não posso forçar ninguém.

— Alopex ajuda! – disse a Ánima, movendo os tentáculos de metal a fim de calibrá-los.

— Será uma honra a este Lestáris lutar ao lado de um – Papiros olhou para Camilo, avaliando se podia falar abertamente sobre quem era Érico. Por fim, optou por não prosseguir. — jovem tão corajoso.

Absolutos I - A Sinfonia da DestruiçãoOnde as histórias ganham vida. Descobre agora