›» Capítulo 21 «‹

1.1K 90 46

É a segunda vez que eu pego Andrea dançando na escola, mas dessa vez foi proposital. Depois do treino de basquete, enrolei meia hora para ver se ela vinha dançar hoje, e acertei nas minhas apostas. Mesmo que o David tenha insistido para eu ir sei lá onde com ele, eu neguei, e nem sei onde a minha racionalidade foi parar neste momento. Na real, eu acho que estou fugindo do David, mas não é nada pessoal. Mentira, é sim. Pareço uma garota falando, mas me sinto mal ao lembrar de tudo o que ainda acontece com a Bailey, mesmo que as coisas já estejam no controle (segundo ele). Por esses motivos, achei melhor me manter longe enquanto tudo não se resolve, principalmente pelo fato das provocações e insinuações que ela fazia. Não que eu me importe ou algo do tipo, mas lembrar que ela se sente como eu é assustador. Mas não a culpo, aliás, seus pais são iguais os meus, e nós agradecemos o fato de que não nos jogaram mais para cima um do outro. Mas também, a mãe da Bailey deve estar tentando raciocinar até agora que será vó.

A quadra vazia não é páreo para a corpulência de Andrea, que se movimenta levemente por toda a extensão do ginásio. Meus olhos hipnotizados dão a total atenção para o seu corpo com curvas, e eu me perco naqueles passos impecáveis. Só consigo pensar no quão cuidadoso ela faz os gestos, coisa que só faz eu me apaixonar ainda mais por ela a ponto de pegar o meu celular para gravá-la. Se eu posso postar vídeos, por que ela também não pode? Ou, talvez, por que eu não posso? Só tenho a consciência disso quando coloco na câmera do meu telefone e começo a gravá-la. E Andrea fica bem na câmera tanto como ao vivo, e ela nasceu para isso.

Antes da música acabar, termino de gravar e posto imediatamente, largando o celular no meu bolso para que ela não veja. Parece que estou cometendo um crime, mas não é isso. Melhor evitar questionamentos, já que eu quero aproveitar esse momento sozinho. Como se nos outros dias isso não bastasse.

A verdade é que andamos muito próximos. Depois daquele momento na casa dela, tudo parece que amenizou. As aparências enganam, e fiquei aliviado ao perceber que o pai dela não é carrancudo como pensei que fosse. No momento, as coisas estão calmas até demais, e eu estou me perguntando se essa é realmente a minha vida ou se eu acabei de entrar num filme. Se for a segunda opção, espero que pelo menos um Oscar eu leve, coisa que é improvável.

— Eu sei que você está aí, Ben, não adianta disfarçar — Andrea diz quando a música para. Ela pega as suas coisas que estão espalhadas pelo chão e coloca tudo na sua bolsa azul, enquanto eu ando em sua direção.

— Tenho que aproveitar esses momentos — digo. — Não é sempre que vejo você dançando.

— Claro que é. Pare de ser exagerado — ela diz e coloca a mochila nas costas, logo em seguida indo em direção à arquibancada da quadra. Eu, claro, vou atrás, sentando ao seu lado.

— Se você continuar assim, capaz de ganhar esse concurso — falo. Ela sorri e dá de ombros, tirando um salgadinho de dentro da bolsa.

— Você quer? — ela oferece.

— Não. Você não ouviu o que eu disse? — pergunto e me aproximo dela, que apenas afirma com a cabeça. — Qual o seu sonho, Andrea?

Ela suspira pesado e para, me analisando profundamente antes de falar algo. Mas nada saí. Pela primeira vez (segundo a minha memória curta), consigo deixá-la sem fala, e vejo que pensa bem antes de responder qualquer coisa. É estranho tudo aquilo, já que Andrea tem as respostas na ponta da sua língua, e talvez esse assunto seja o mais delicado para ela.

— Não sei — ela responde por fim. — Dançar é o meu sonho, mas eu não sei como. Não quero conhecer o mundo; quero apenas o que está ao meu alcance. Ao mesmo tempo, quero ser livre e não ficar presa em apenas uma coisa. Ben, meu sonho é mostrar para as pessoas que dança é além de gestos.

Além do MarWhere stories live. Discover now