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Capítulo Um: A Prisão

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     "Os deuses de Semboula eram uns filhos da mãe, todos o sabiam... mas quando um sacana qualquer resolveu matá-los, as coisas não ficaram mais famosas. Foi nesses dias negros que me tornei salteador, ladrão, mercenário, pirata do deserto. Mares tornaram-se desertos, rios tornaram-se vales, pragas de gafanhotos assolaram culturas agrícolas, a pecuária e a pastorícia definharam... e um contrabandista tornou-se Imperador. Salários começaram a ser pagos a água, oriunda dos Poços do Império, duas megalíticas construções que albergam toda a água que restou do mundo. Ninguém sabe ao certo quem matou os deuses, se foi homem ou diabo, mas esse traficante de escravos conhecido entre os cãezinhos do submundo como Landon X apoderou-se dos Poços e vozinhas repugnantes começaram a chamá-lo Imperador. Aposto o meu polegar da sorte em como um dia irão pagar-me pela sua cabeça. Fico louco de pensar na recompensa. Rezo ardentemente por esse dia. A que deus, não sei explicar"

***

      Julgavam que ele estava a dormir.

      Enganaram-se.

      Língua de Ferro não dormia quando as luzes estavam acesas. Geralmente, era quando os homens morriam.

      Com as pálpebras semicerradas, distinguia as grades de sombras projetadas sobre o piso de cimento. Os ouvidos captavam os ruídos abafados, o som de pedra a raspar em pedra e unhas a raspar em metal, o chinfrim metálico das chaves a abrir trincos e os gritos terríveis que terminavam em estertores de agonia e em silêncio. Língua de Ferro sabia que a sua vez chegaria. Não estava ali por acaso. Diziam que tentara matar o Imperador.

     Brincadeirinha.

      A cela escura estava cheia de odores. Urina, excrementos, ratos e coisas piores. Tinha a cabeça coberta de vermes, que contorciam-se e passeavam-se pelo couro cabeludo, entrando por entre as longas melenas do seu cabelo azul-turquesa. Os braços, encordoados de músculos, estavam cobertos de feridas abertas e pústulas, onde insetos repugnantes e inomináveis provaram do seu sangue.

      Língua de Ferro envergava um par de bragas de couro. Pesadas grilhetas cingiam-lhe os pulsos e os tornozelos, e uma coleira em malha de aço, flexível, estava apertada em volta do seu pescoço. Tinha as pernas inchadas, grossas como raízes de sequóia. Os músculos latejavam. Tinha sede. De água e de sangue. No mundo em que vivia, o sangue era bem mais acessível que a água.

      Haviam-se passado dez anos desde que os mares secaram. Há um ano, Língua de Ferro era o terror dos desertos. Salteador de caravanas e de comboios a vapor, montava Hije, o seu diabo de estimação, e manejava com fluidez a espada que lhe valera o apelido. Língua de Ferro era um notável no mundo assolado pelo saque, onde piratas dos desertos tornaram-se governadores. Arrogantezinhos que se mijam nas calças de cada vez que ouvem o meu nome, disse a si próprio.

      Seis meses atrás, fora contactado por um velho amigo para assaltar a viúva de um sacerdote. O prémio era pago a água – de resto, era a recompensa que ele mais almejava, mais que peças de prata ou de ouro. No fim, tudo não passou de uma armadilha para o capturar. Uma armadilha tecida pelo próprio Imperador. Se quisesse, conseguiria escapar e dar-lhe uma morte rápida. Mas Língua de Ferro era mais ambicioso – queria ser pago para matá-lo. Há anos que esperava por essa proposta. Odiava o Imperador. Odiava-o com todas as suas forças. Não que o conhecesse pessoalmente, mas ouvira falar dele. Odiava-o por nenhuma razão em particular. Odiava-o porque sim, e iria matá-lo por isso.

     Língua de Ferro era uma lenda dos desertos. O Imperador não era ninguém. Landon X era apenas um nome. Poucos eram os que o conheciam, e os boatos segredavam a sua fragilidade e cobardia. Se o Imperador esmagasse a lenda dos desertos, essas questões desapareceriam. Acho que foi assim que tudo começou.

Língua de Ferro - Um Sacana QualquerRead this story for FREE!