04 - Sacrifício - Parte 5

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ANOS ATRÁS

  Ruth está chorando no seu banheiro após ter acordado daquele pesadelo de sangue nas mãos e do espelho quebrado.  É aquela mesma noite e as imagens entorpecem-na em agonia que parece eterna. Gilbert bate na porta e chama:
– Ruth! Ruth! Ruth! Fala comigo!
Ela queria continuar quieta em seu canto, mas não resiste a tanta insistência e abre a porta.
– É tudo... Tudo minha culpa, Gilbert. – ela desaba em prantos nos braços do marido.
– Ah, querida... De novo essa história? A culpa não foi de ninguém. Simplesmente aconteceu e nós os perdemos. Assim é a vida... Assim... – Gilbert ia continuar o consolo mas é interrompido:
– NÃO! NÃO! Essa não é a vida! Isso não é viver! NÃO, NÃO, NÃO! – Ruth esmurra os ombros do cônjuge que tenta contê-la com carinho.
– Ruth, se você não abandonar essa história, você nunca vai melhorar! Pare de acreditar nisso! – Gilbert continua tentando ajudá-la, mas ela sai do seu abraço e começa a perambular pelo quarto.
– Eu-eu-eu nunca vou melhorar... NUNCA! Eu não mereço melhorar! Por que... Por que você não me internou logo quando viu que eu estava ficando louca? Lembra daquilo que eu fiz na cozinha? O quanto eu estava histérica? Eu era uma bomba relógio que VOCÊ deixou estourar – Ruth metralha essas palavras com sangue em seus pensamentos e lágrima nos olhos.
– AH! Agora a culpa é minha? Ruth, por favor, isso não está ajudando ninguém –  seu marido se senta na cama cansado, massageando a testa.
– Não há como... Não há como nos ajudar... Me ajudar... Estamos perdidos... –  Ruth começa a divagar para si mesma.
– Meu amor, hoje eu lido melhor com o luto. Você vai conseguir.
– Eu não falo só disso! Eu também estou falando de tudo que eu os fiz passar enquanto cresciam. Toda a minha raiva, minha tristeza, amargura. Eu nunca achei que fosse ficar assim. Eu sempre achei que iria me tornar uma boa mãe – aqui Ruth engasga com o choro que se força a engolir.
– Querida, querida... Quanto a isso, eu venci toda essa confusão mental, essa raiva que eu tinha. Você me ajudou com o seu amor. Agora eu quero te ajudar a ficar bem como eu fiquei. Você vai ficar bem, eu sei –  Gilbert envolve o braço da esposa com uma de suas mãos quando ela para ao seu lado em pé.
– Eu não sou tão forte quanto você e todos sabem disso. Eu já ouvi a Dora e o Craig comentando isso... Acharam que eu não estava ouvindo. Hmpf. Eles se perguntaram como um cara como você tinha se casado com uma fracassada como eu –  depois disso, Ruth desaba deitando a cabeça no colo do esposo. Ele acaricia o seu cabelo e mantém o olhar perdido no nada repetindo:
– Tudo vai ficar bem, querida. Tudo vai ficar bem.
Ruth repassa a sua vida como um filme em sua mente. Ela pausa em cada briga que teve com os filhos. Ela congela a imagem em cada tapa, puxão de cabelo e soco que lhes deu. Por que a raiva é essa parte de mim tão enraizada? Já não sei mais onde ela termina e eu começo.

***

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SETE - Volume I [COMPLETO]Where stories live. Discover now