1 - O cão da meia noite

97 8 2


Cidade Velha, 1992...

Nuvens cinzas, o vento prenuncia o temporal e arrasta folhas de mangueira pela Praça da Sé. 

Como toda Ciudad Vieja que se preze, a Cidade Velha de Belém é um bairro sujo, perigoso e apaixonante. 

As fachadas dos prédios – antiquíssimos, imemoriais – legam às ruelas uma atmosfera meio lúgubre, de nobreza decaída. 

A arquitetura do lugar parece se confundir com a vida dos que o habitam. Todos os residentes que conheci por ali, invariavelmente, ou eram de linhagens nobres (e falidas), ou eram pobres diabos (estudantes, prostitutas, travestis, portugueses...)

Enquanto eu me encontrava nesta segunda categoria de pessoas – era universitário – meu colega João Luiz, o Duranz, atendia tanto à primeira quanto à segunda tipologia: era um estudante sem dinheiro, além de ser descendente de portugueses, ter uma irmã puta, escapando ele mesmo do assédio dos rufiões da Riachuelo. Um dia ele me falou que perdeu a virgindade com o pipoqueiro do colégio na infância.

Uma das coisas que pode explicar a existência de um cara como o João é que seu ego havia sido reduzido a um tal grau de miséria que seu caráter um dia sucumbiu à dor. 

Isso é o que chamam de bullying hoje em dia? 

Talvez essa coisa o tenha feito desistir de enfrentar o mundo tal como uma pessoa normal, então ele quis que o mundo o enfrentasse.

Além do mais, o João não possuía o talento, fama & dinheiro para a popularidade.

Logo, é de se esperar que a força motriz dele fosse a vingança. 

Ele tinha plena consciência disso, e não se deixava abater pela falta ou fartura de condições materiais. 

Durante o tempo em que moramos juntos, por exemplo, mesmo quando já trabalhávamos e ganhávamos salários razoáveis, o único luxo que João ostentou foi o acesso irrestrito aos livros, isso porque o Tomás, dono do Sebo do Tomás, não se importava em lhe fazer empréstimos sem esperar pelo pagamento. 

Era isso e o Cohiba, um cigarro fortíssimo de Cuba que ele importava na Tabaqueira.

Foi lá mesmo no Sebo do Tomás (na saída da Óbidos com a Tamandaré), numa tarde chuvosa de dezembro, que eu conheci o João. Na verdade eu já o reconhecia da Universidade e dos tempos da escola, mas a coincidência de estarmos naquele lugar fétido, procurando pelo mesmo volume (não-acadêmico), fez nossos caminhos se estreitarem a ponto de virarmos verdadeiros amigos.

- Tomás, meu camarada! Tô procurando o Cão da Meia Noite, do Marcos Rey. – disse ele ao dono do sebo.

- Acho que o dono atual não vai deixar você passear com o Cão hoje. – respondeu Tomás e apontou para mim, que folheava o Cão com o cotovelo apoiado numa escada articulada.

- Desculpe... Boa tarde! O que você tá lendo? - chegou-se a mim o João, fazendo-se de desentendido.

- Palavras, palavras, palavras...

- Shakespeare?

- É, mas no caso aqui, é Marcos Rey mesmo. - respondi sorrindo, fiquei alegre por ele ter reconhecido a referência e mal consegui disfarçar isso.

João me convenceu a fazer um empréstimo de duas semanas sobre o livro, sendo que eu ficaria devendo metade ao Tomás e ele a outra metade. Ele parecia esfomeado. Fiquei com dó e fechei o acordo.

Os dias passaram e nós nos encontramos novamente. 

João não pagou sua parte, mas conseguimos fazer o mesmo outras vezes, com outros volumes, de modo que o Tomás do sebo perdia dinheiro enquanto minha amizade com o João aumentava formidavelmente. Logo estávamos nos encontrando quase todos os dias.

Eu gostava de ouvir seus pequenos escândalos, que ele contava com o ardor dos egoístas quando falam de si mesmos. 

Fontes seguras (Tomás) me diziam que eu não deveria confiar no meu novo amigo porque, além de cleptomaníaco, ele era um péssimo escritor de prosa – e todo prosador possui vícios insanáveis. 

"Ele é pretensioso, pensa que é original fazendo uma mistura de poesia com prosa", me alertava o Tomás.

Pensei em dissuadi-lo para que ele investisse em poesia, mas desisti dessa ideia porque eu não me sentia em condições de aconselhar um cara cuja vastidão de leituras me parecia perto do sublime.

O João me educava, essa era a verdade. 

E eu senti que a amizade com um cara assim poderia me trazer vantagens inestimáveis. 

Pensei em estabelecer com ele uma relação meio usurária de trocas vantajosas... então um dia eu lhe confiei esse sentimento mesquinho. A resposta veio, na maior tranquilidade, em forma de convite:

- Vem morar comigo, Raul. – ele disse

Sheila Use & AbuseLeia esta história GRATUITAMENTE!