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No momento em que Anya avistou a casa de Brenda ao final da rua, a confusão de sentimentos que se instalou nela desde aquela chamada começou a diminuir e ela conseguiu pensar com clareza.

Que droga foi aquela, afinal?, perguntou-se, de repente indignada consigo mesma. Por que saiu de lá como uma doida? Não era assunto seu, não era da sua maldita conta, então podia muito bem ter ficado, não podia? Bastava se desculpar por ouvir a conversa e depois tomar o café da manhã tranquilamente, como qualquer ser humano normal.

Sentiu-se imediatamente estúpida e mal-educada. Isso porque, apesar de sua ideia inicial sempre ter sido a de sair sem se despedir, Diogo preparava o café da manhã para os dois e merecia pelo menos um agradecimento por se dar ao trabalho. Afinal, se ela cochilou e passou a noite na cama dele, a culpa era exclusivamente sua e de ninguém mais.

Mas o que será que ele acabou dizendo àquela mulher? Que não podia dar nada mais a ninguém? Que já dera mais a alguém? E, pensando bem, o que seria esse "mais", exatamente?

Ora, por favor! Isso por um acaso importa a você, Anya?

— Não — respondeu em voz alta, dando de ombros e erguendo o queixo em teimosia. — Não me importa nem um pouco.

Decidida a esquecer seu comportamento infantil e a encerrar aquele monólogo inútil tanto quanto a ignorar o futuro e os encontros de Diogo nesse futuro, Anya jogou uma olhada em seu relógio de pulso e abafou um gemido. Eram quase sete horas da manhã e, se houvesse lhe restado algum juízo na noite anterior, não teria bancado a tola nesta manhã maldita.

Estaria, ao invés disso, levantando-se de sua própria cama depois de uma saída divertida com suas amigas e uma boa noite de sono para ir até a praia dar continuidade em seu descanso com um maravilhoso cochilo sob o sol.

E, depois, ainda sem precisar pensar em nada dessa confusão — já que ela não existiria, obviamente —, Anya voltaria para casa, tomaria um longo banho e dedicaria a hora seguinte a cuidar da pele e dos cabelos.

Sim, era isso o que estaria fazendo se houvesse lhe restado algum juízo.

Mas não. Em vez de curtir a sua rotina de sábado, ela estava ali, chegando em casa com a roupa toda suja de sorvete da corrida no dia anterior. E isso depois de mentir para suas amigas, dormir com um cara que não pretendera reencontrar e se envolver em algo que tampouco era da sua conta.

Meu Deus, estou virando o meu irmão...

Obrigando-se a deixar aquele assunto de lado urgentemente antes que ficasse mais doida do que já se sentia, Anya direcionou seus pensamentos para Catrina e o livro de receitas da família.

Tinha de conferir aquele livro melhor. O problema era que não fazia ideia de como ele era antes do "empréstimo", então não sabia muito bem o que poderia haver de errado nele. Precisaria se contentar em só verificar a existência de restos rasgados de página ou tinta com cor diferente em algum lugar.

Mas, bem, Anya não reclamaria. O pior já passara e ela se conformaria com o fato de que Catrina poderia simplesmente ter jogado o livro fora sem ninguém saber. Além do mais, precisava parabenizar a si mesma pelo gerenciamento eficaz daquele "compartimento" de sua vida. Ela quase teve êxito em sua fuga desesperada pelo shopping, não foi? O que significava que estava pegando o jeito.

Tanto que também aplicara seu método de fugas desesperadas em outros compartimentos de sua vida, como em seu não relacionamento com Diogo Vieira.

Mas que droga! Pare de pensar nele!

Irritada consigo mesma, tentou focar em algo que lhe garantiria mais concentração: os assuntos da cafeteria e até mesmo a bagunça dos pirralhos no aniversário infernal.

[REPOSTAGEM] Amores, Amores, Compromissos à ParteWhere stories live. Discover now