Super-homem por uma noite

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A sua vida nunca mais é a mesma depois que sua esposa e sua filha morrem. E eu acho que fica tudo muito pior quando você foi o responsável pela morte delas, o que é o meu caso. Ok, os peritos, os advogados, o juiz... Todos eles disseram que não foi minha culpa. A culpa foi do outro motorista, um caminhoneiro bêbado que perdeu o controle da direção numa pista molhada. Eu conheço a física, sou - ou pelo menos fui, um dia - professor de física. Os meus anos na faculdade foram mais do que suficientes para me convencer de que, à velocidade em que o outro motorista estava, considerando as condições da pista e a velocidade cautelosa com que eu dirigia meu suv, seria impossível evitar uma colisão. A velocidade máxima permitida era de 80 km/h. Eu estava a 70 km/h. Ele estava a 120 km/h. Pouco me importa o que aconteceu com aquele motorista. Sei que saiu ileso do acidente e que foi condenado a me pagar uma indenização que eu sei que não vou receber. Nem quero receber, na verdade. A mim, não me interessa receber nenhum dinheiro.

A mim, só me interessaria ter de volta minha esposa e minha filha. Nas noites em que consigo dormir, costumo sonhar com elas. Posso ouvir suas risadas, olhá-las nos olhos, dizer-lhes o quanto as amo e abraçá-las. E, quando acordo, sinto uma vontade enorme de morrer também, de estar de novo com elas, para sempre. No fundo, eu sei que já morri também. Só que, por algum motivo, continuo aqui, existindo. "A gente precisa te ressuscitar", é o que minha irmã sempre diz.

Ela tenta me ajudar, a minha irmã. Eu realmente gosto muito dela e sou grato por não ter desistido de mim. Acho que ela é a única que não desistiu de mim, já que até eu desisti. O problema é que eu não consigo me perdoar. Nada me tira da cabeça que o culpado por tudo o que aconteceu fui eu. Não fui eu quem causou o acidente. Mas fui eu que coloquei minha família naquilo. Fui eu que insisti com a minha esposa para pegarmos a estrada de noite. Fui eu que coloquei minha filha na cadeirinha e a afivelei no banco de trás. Fui eu que resolvi pegar um caminho alternativo para evitar o movimento de uma grande rodovia. Fui eu que sobrevivi. Eu não teria hesitado nem por um segundo se tivessem me dado o direito de escolher. Vai ver foi isso o que deu errado: a minha vida pela delas jamais seria uma troca lucrativa.

Minha irmã me diz que eu sou egoísta. Ela diz que eu sou tão egoísta que até a culpa pela morte da minha esposa e da minha filha precisa ser minha. Ela diz que eu faço questão de carregar toda a dor do mundo. Eu não faço questão nenhuma, mas acho que carrego sim boa parte da dor que existe no mundo. Qualquer um se sentiria assim no meu lugar. Às vezes eu acho que Deus está me sacaneando. Minha irmã briga comigo toda vez que falo isso, ela diz que a minha autopiedade é um problema meu, e não de Deus. E quando ela me diz isso, eu me calo. Não por achar que ela esteja certa. Eu me calo para evitar discussão, mesmo. Apesar de ela estar sempre ao meu lado, sinto como se, na maior parte das vezes, ela não estivessecomigo. Não, ela tenta estar sempre comigo, na verdade. O problema é que eu não costumo estar lá.

Eu nunca disse isso a ela, mas bem lá no fundo eu gosto quando ela grita comigo dizendo que preciso seguir a minha vida, sempre que me pega chorando no meio de garrafas de cerveja. Não é dos gritos e nem do que ela diz que eu gosto. Eu gosto do modo como ela cuida de mim e se importa comigo. Antes de perder a voz, ela para de gritar e me abraça. Choramos juntos por alguns minutos, ela me beija a testa e me solta, pega o violão, senta-se à minha frente, sorri e começa a tocar e cantar Superman Tonight. Ela não é muito afinada e está longe de ser uma boa instrumentista - e tomara Deus que ela nunca leia isso -, mas naqueles momentos eu sei que ouço o som mais perfeito do mundo. Por alguns instantes, eu sinto uma vontade enorme de viver. Só para mostrar a ela que o esforço não foi em vão.

De corOnde histórias criam vida. Descubra agora