4a. Dias sombrios (parte 1)

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Nos fins de tarde eles sempre se sentavam sob as árvores para tomar tereré, conversar e ouvir histórias. Essa era a hora em que todos estavam por ali. As crianças já tinham chegado da escola, os homens do serviço nas usinas de cana-de-açúcar, ou outros trabalhos nos quais trabalhavam na cidade e fazendas próximas, as mulheres ou outros que tivessem ido à cidade marretar expressão usada para designar negociações que faziam na cidade, como vender mandioca ou batata, ou mesmo fazer compras – também já estavam de volta.

Os assuntos giravam em torno dos acontecimentos no dia, como notícias e informações, ou outros que Porasy classificava como sendo de história oral. Nestes últimos estavam enquadradas as histórias de quando e como os antepassados, em tempo muito longínquos, chegaram ali. Uma mistura de história, mitologia e talvez até lenda. Mas essa era a história do povo. E era essa que passariam para os filhos e netos.

— E os outros filhos da Kerana, vovô – Porasy voltou a perguntar ao avô no momento que lhe servia tererê, debaixo de uma árvore qualquer, no fim da tarde –, eles também ainda existem?

Por mais que ela tentasse, não conseguia esquecer a linda menina indígena, antepassada sua, raptada pelo espírito do mal. A história passou a lhe queimar por dentro. Por vezes, Porasy chegou a sonhar com Kerana, ela lhe olhando com desespero, presa na morada de Tau.

— Claro – o avô respondia crescendo o assunto quando já tinha muitos na roda do tereré. – Eu mesmo já vi o Luison e, filha, com este você tem que tomar cuidado. Ele também é muito perigoso.

— Onde, vovô? Onde o senhor viu o Luison? – os olhinhos de Amandy, a irmã caçula de Porasy, com apenas cinco anos, ficavam arregalados e ela se aninhava ainda mais nos braços do avô.

Amandy sempre prestava muita atenção às histórias. A pequenina adorava as histórias do avô. Ela ficava sentada perto dele, ou mesmo entre as pernas dele, onde se dependurava e brincava de balançar enquanto ouvia atentamente tudo o que ele falava. Depois ela contava aos outros. Era incrível como ela se lembrava dos detalhes e usava a entonação dos mais velhos ao narrar o que tinha ouvido. Sempre que ela fazia isso, todos ficavam encantados e riam muito.

As crianças eram o bem mais precioso da comunidade. E uma responsabilidade de todos também. Desde os mais velhos, até as outras crianças, todos cuidavam dos pequenos. Era responsabilidade de cada um alimentar, dar banhos, brincar e proteger os menores.

Amandy era responsabilidade de Yvy Rajy e Porasy. As irmãs mais velhas adoravam brincar com ela, fazer cócegas, rir com ela. Mas também tinham de protegê-la dos perigos e ajudar nos cuidados com ela. Mas isso nunca foi um peso. Para nenhum deles era peso cuidar dos pequenos da Aldeia.

— Criancinha não pode ficar ouvindo essas histórias – Thomas também estava sentado na roda de tereré.

— E por que não? Eu quero ouvir também – assim começavam as discussões de Amandy com ele. E muitas vezes terminava com ela muito brava e emburrada.

— Porque depois, esses monstros aparecem para você e te pegam. E daí era uma vez uma menininha bem feinha.

Thomas, por muitas vezes, se manifestava um adolescente muito chato. Ele sempre implicava com as três irmãs. Mas o alvo principal dele era Porasy. Ele se intrometia em tudo que ela fazia.

— Deixa ela – o avô lhe repreendeu. – Ela também tem de aprender as histórias do nosso povo. Tem de saber das coisas dos nossos primeiros parentes.

Porasy e o estranho mundo das histórias de seu avô indígenaOnde as histórias ganham vida. Descobre agora