5b. aparição

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As pessoas da casa de Porasy, tinham um local próprio para lavar roupa e recolher água. Aliás, cada uma das famílias nucleares tinham o seu local específico. E foi para este lugar que ela se dirigiu. O local, como na maioria dos outros, tinha uma tábua, que ficava parte fora e parte dentro das águas. Estava liso devido ao constante uso.

Porasy retirou suas roupas da banheira de nenê da irmãzinha, e colocou água nela onde dissolveu o sabão em pó. Depois colocou toda a roupa nela de novo. Enquanto a roupa ficava de molho, a menina ia retirando uma por uma e esfregando sobre a tábua e voltando para a banheira. Era um serviço que ela fazia desde os sete anos, mais ou menos, então sabia muito bem como fazer. Tinha habilidade, até.

Depois de uns minutos em que estava concentrada no serviço, ouviu mais uma vez um barulho. Agora vindo do mato. De novo era como se folhas secas estivessem sendo pisadas e partidas. Porasy parou o que fazia, aguçou o ouvido, olhou em meio a vegetação na tentativa de ver o que se aproximava. Pois, com certeza, tinha alguém ou algo ali. Então pensou que seria seu primo e não se preocupou mais. Sentiu raiva. Mas o barulho continuou só no mato, ninguém saiu dele. Chegou à conclusão de que o primo a estava espionando. Ela já tinha notado que ele ficava a observando algumas vezes. Ele não era só implicante, era também grudento. Mas não queria que ele continuasse a espionando do mato.

— Sai daí! – Gritou. – Vai caçar um serviço! Tem muito serviço na roça.

Estava zombando dele. Na verdade, não tinham tanto espaço assim para plantar. Plantavam em uma roça pequena e comunitária. Produziam alguma mandioca, batata, abóbora, feijão de corda, milho e algumas frutas. O resto da alimentação vinha da cesta básica e do trabalho dos pais em usinas, ou lavouras dos fazendeiros da região e das mães como domésticas ou diaristas na cidade. Até nisso eram humilhados, se sujeitavam a trabalhar para aqueles que tiraram tudo deles.

Porasy ficou aguardando o primo, mas nada dele aparecer. De repente um incômodo percorreu sua espinha lhe arrepiando a pele. E se não fosse seu primo? E se fosse um dos capangas dos fazendeiros, ou mesmo outra pessoa interessada em lhe fazer mal?

— Thomas! – gritou. – É você?

Então alguém surgiu no meio do mato. Mas não era primo, como ela pensava. Era um rapaz, mais ou menos da idade dele, e também muito bonito. Usava bermuda, camiseta, tênis e enfeites. Seus olhos eram pretos e lindos, como os seus cabelos. Moreno e queimado do sol como os outros rapazes de sua comunidade e etnia. No entanto, ela não o conhecia.

Porasy se assustou. Se assustou muito mesmo. Se lembrou que o acampamento estava quase vazio e o lugar era sempre muito acessível a quem quisesse chegar ali.

— Que... que... quem é você? – Perguntou, sentindo que não só a voz tremia, mas todo o corpo. Estava muito assustada. O fato dela estar sozinha, de não o conhecer e ele estar ali, encarando-a, levantou um monte de possibilidades de mal que ela poderia sofrer.

O rapaz não respondeu. Apenas ficou olhando-a, fitando-a como se a conhecesse e temesse. Ou odiasse. Porasy sentiu seu olhar, primeiro encarando-as, despois percorrendo seu corpo. Era um olhar que queimava, que intimidava. Ele não era do acampamento. Mas também não era branco. Quem seria ele?

Foi nesse momento que seu primo surgiu pelo caminho da lagoa. E assim que o rapaz desconhecido o viu, sumiu como mágica em meio à folhagem. O coração de Porasy estava acelerado. Ela ficou apavorada. O estranho rapaz a deixou tremendo e sem forças nas pernas.

— O que foi prima? Você me chamou? – Seu primo falou com ela, mas ela estava paralisada.

— Prima! – ele insistiu. – O que houve?

Porasy e o estranho mundo das histórias de seu avô indígenaOnde as histórias ganham vida. Descobre agora