Capítulo 17: Caminhos convergentes

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— Ah, prefiro não saber – respondeu Érico, mesmo que fosse doloroso. Saber seu futuro seria atestar que era imutável, e ele não podia permitir algo assim.

— Hum. Uma pena. Ainda assim, este Lestáris pode ler para sí? – perguntou Papiros, puxando uma lupa ornamentada da bolsa ao lado.

— Pode, sim, só não me conte nada!

Papiros pediu com um gesto que ele tirasse a camisa. Érico obedeceu. Os olhos vazios com pequenas esferas vermelhas passearam pelo seu corpo tatuado e ele fez caras e bocas que felizmente Érico foi incapaz de entender se eram boas ou não.

— Esplêndido.

— Você não tem medo de mim? Por eu ser... um deles?

— Está brincando, milorde? Nós, Lestáris, somos os seres mais inteligentes de todo o Universo. Não tememos nada, porque conhecemos a natureza presente em todas as coisas. Inclusive dos Absolutos. Somos curiosos, pesquisadores e exploradores natos. Não somos tóxicos como aqueles Parábolos malucos, incitadores do caos pelo caos. Somos civilizados, e o Deus caótico ao qual servimos é oposto a ordem, um complemento, como se fossem um só – ele tocou uma parte da pele de Érico, franzindo o cenho.

— Quem diria, tão pequeno e tão perigoso. E este Lestáris gostou desse apelido: Horror dos Céus.

— Esse nome é horrível. Eu não vou ser horror de nada – defendeu-se Érico, desejando poder sair dali.

— Diga-me, milorde, qual é sua habilidade única? – Papiros o ignorou.

— Não sei ao certo, mas eu saí voando uma vez. Acho que tem a ver com essa tal habilidade.

— Absolutamente – riu Papiros. — Usar essa palavra nunca pareceu tão apropriado. – Érico não esboçou reação diante da tentativa de piada. — Sim, milorde, com certeza não há outros humanos voando por aí. Agora, diga a este Lestáris, o senhor só voou ou já fez algo mais além disso?

— Até agora, só isso – disse Érico, desconfiado.

Papiros deslizou para o canto de sua biblioteca e agarrou um livro pesado, trazendo-o até sua cadeira.

— Permita-me fazer um teste, milorde. Tente mover esse livro – pediu Papiros.

— Não funciona assim. Eu já tentei voar de novo e nada. Acho que eu preciso estar em uma situação de risco, ou sob pressão, sei lá. Só aconteceu uma vez de eu voar, e sem controle ainda. Não sei como fazer – explicou Érico, olhando para a edição pesada do livro Enciclopédia dos Mundos Elementais.

— Hum, sob pressão... magnífico, podemos trabalhar nisso – Papiros jogou sua mão para trás e puxou uma pistola ornamentada detrás do cinto, apontando para a cabeça do rapaz.

— O que que é isso? – berrou Érico, quase caindo da cadeira. No segundo seguinte, o medo se transformou em incredulidade — Você acha que eu acreditaria mesmo que você iria...

Um tiro explodiu os tímpanos de Érico. Um pequeno filete de sangue escorreu de sua orelha. O projétil havia passado de raspão. Seus olhos arregalados fitaram o Lestáris, que sorria.

— Não duvide da coragem de um Lestáris. Este Lestáris não errará na próxima. Mova o livro, milorde.

Érico apontou as mãos para o livro, mas ele ainda não se movia. O Lestáris começou então uma segunda tática.

— Dez. Nove. Oito. No zero, apertarei o gatilho. Seis.

Os olhos de Érico fixaram-se no livro. Veias saltaram de suas mãos. Seus músculos retesaram, seus dentes cerraram e ele salivou, os olhos sem piscar lagrimejaram, arregalados.

Absolutos I - A Sinfonia da DestruiçãoOnde as histórias ganham vida. Descobre agora