Capítulo 6 - Ação & Reação

Começar do início

- É - Oz suspirou, estalando os dedos, ato que sempre fazia quando via-se nervoso. - Acho um bom começo. O problema é aquele né...

- Convencer o Randall - o interrompeu, já sabendo o fim do discurso. - Não se preocupe com isso. Eu tenho algumas cartas na manga.

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Eram nove horas e quarenta e sete minutos da manhã de terça feira. Os detetives caminhavam pelos corredores com aroma de desinfetante, tentando esconder a curiosidade sobre a história de cada cadáver que encontravam no necrotério. Uns de aparência impecável, outros tão destruídos pelo ódio quanto a bailarina. Mas todos igualmente interessantes.

O perito Luke Brown os guiara até a sala com as paredes compostas por azulejos brancos, acompanhados por um cheiro perturbador que vagava entre os lençóis amassados. As curvas de corpo humano podiam ser facilmente reconhecidas sob os tecidos, com braços musculosos se sobressaindo em alguns, barrigas elevadas em outros...

E então tinha Marjorie.

Ao puxar o lençol delicado que cobria seu rosto, tão bonito dois dias atrás, o choque foi ainda maior do que antes. A pele estava mais pálida, com veias esverdeadas começando a tomar forma ao redor dos orifícios pavorosos que costumavam abrigar seus olhos. As ondas douradas estavam enrijecidas com o sangue seco, e uma toalha cobria o restante de seu corpo esbelto.

Jack se perguntou por onde andaria o tule rosado em que a mulher se encontrava, quando a viram no carrossel. Rapidamente, a imagem da peça de roupa jogada em sacos de lixo começou a impregnar sua mente, e a comparação inusitada daquela cena, ao destino fatídico da bailarina teve vez.

Marjorie, em breve, nada mais seria do que um cadáver esquecido sob a terra do cemitério St. Louis. Devorada por insetos, talvez? Devido à sua experiência, o detetive sabia que, menos de um mês após o enterro, caso exumassem seus restos, não haveria uma única recordação da beleza que ela um dia tivera.

Apenas ossos fedorentos em um túmulo de madeira.

- Não encontramos os olhos dela, detetive - o perito comentou, com as mãos repousadas à frente do jaleco branco impecável. O homem piscava com uma frequência absurda, como se aparentasse ter um tique de nervoso, o que fazia Jack evitar encará-lo diretamente. O investigador tinha a aflição de piscar no mesmo ritmo para acompanhá-lo e, embora fosse inconsciente, sempre acabava fazendo isso. - Vasculhamos toda a região. O assassino os carregou.

- O senhor fala assassino com tanta exatidão que parece ter certeza de que se trata de um homem... tem algum motivo de especial para isso? - perguntou Oz, com as anotações sendo feitas em seu caderninho de couro vermelho.

- Na verdade, sim - o profissional ajeitou seus óculos com o dedo indicador, virando-se para o cadáver. - Se os senhores repararem nas costas dela, verão que os arranhões foram feitos a faca e, dada à brutalidade do crime, duvido muito que uma mulher consiga...

- Duvidar de um sexo por conta da arma utilizada é um pouco negligente, senhor Brown - Jack o interrompeu, enfiando as mãos nos bolsos, para conter a necessidade de tocar nos arranhões que se amontoavam pela pele de Marjorie; visíveis depois que o perito colocou o corpo dela de lado, com a cautela explícita nas luvas brancas que a tocavam como se fosse brasa. - Há mulheres com psicopatia em todo lugar. Nosso último caso, inclusive, envolveu a morte de uma filha por sua própria mãe; não duvide da habilidade humana de cometer atos bárbaros. A índole assassina não tem sexo, apenas a maldade absoluta expressa em seus atos.

- Compreendo... - o perito murmurou, pensativo. - Mas maldade é pouco para definir este crime, senhor Johnson. A raiva e a violência que o assassino, seja de qual sexo ele for, é quase desumana. Como se tivesse liberado a frustração de uma vida inteira no corpo desta jovem moça.

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